Tenho apenas 2 comentários a dizer sobre as Buscas da Polícia Judiciária em Alvalade:
1) Segundo a publicação, foi o próprio Sporting, após ter recebido uma denúncia anónima, que informou, na altura, o recém eleito presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes. A PJ investiga suspeita de corrupção no Sporting-Marítimo porque foi o Sporting que colocou o assunto nas mãos da PJ.
2) A confirmar-se a notícia, constato que foi preciso o sr. Cardinal ficar em casa para o Sporting não ser prejudicado nas arbitragens, porque sempre que esse senhor apitou jogos do Sporting, o Sporting foi sempre prejudicado.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
quinta-feira, 12 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
fernando pessoa, poema em linha reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
(...)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
(...)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
sábado, 7 de abril de 2012
complexidade, agentes, economia
As relações sociais são tudo menos lineares. Mais do que complicadas, são complexas. A economia clássica e neo-clássica teima em fechar os olhos a toda essa complexidade: relações de poder e tantas outras que se criam entre os agentes são assuntos marginalizados e que não têm espaço na ilusão de que oferta e procura criam os preços que irão garantir equilíbrios mágicos e felicidade eterna. Os mercados são eficientes e irão atingir um equilíbrio que deixará satisfeitas todas as partes... basta modelar as curvas certas e deixar o tempo passar. A evolução dos preços determinará os comportamentos dos agentes, que passo a passo se encaminharão para um comportamento que coincidirá com o previsto ponto de equilíbrio.
Uma outra perspectiva, centrada no agente, preocupa-se com o oposto. Preocupa-se em modelar as assumpções básicas que determinam o comportamento dos agentes para daí avaliar a evolução das estratégias e a emergência de padrões. Afasta, por exemplo, a ideia de que a evolução dos mercados se pode conhecer à priori. Tenta, em vez disso, prever a estrutura desses mesmos mercados dadas as interacções (não lineares) entre as partes. Essas estruturas resultantes são determinísticas, mas não previsíveis, como nos faria crer a teoria do equilíbrio geral.
Uma outra perspectiva, centrada no agente, preocupa-se com o oposto. Preocupa-se em modelar as assumpções básicas que determinam o comportamento dos agentes para daí avaliar a evolução das estratégias e a emergência de padrões. Afasta, por exemplo, a ideia de que a evolução dos mercados se pode conhecer à priori. Tenta, em vez disso, prever a estrutura desses mesmos mercados dadas as interacções (não lineares) entre as partes. Essas estruturas resultantes são determinísticas, mas não previsíveis, como nos faria crer a teoria do equilíbrio geral.
Depois da teoria, venha a prática. Comecei à pouco tempo a brincar com esta novidade dos modelos baseados em agentes. Aliás, sintam-se afortunados por estar aqui a partilhar o primeiro modelo que criei, tão simples, tão básico e tão ingénuo. Vou tentar explicá-lo:
Aqui em cima, sobre o fundo preto, estão os agentes, as pessoas. Essas pessoas poderiam fazer muitas coisas. Aqui, apenas se movem no espaço e mudam de cor. As disposições e cores iniciais são aleatórias. Do lado esquerdo estão algumas variáveis que se podem ajustar: o número de pessoas, a personalidade de cada pessoa e a probabilidade de uma pessoa nascer ou morrer.O modelo é tão simples que quase me envergonha. O resultado é complexo. Apenas existem duas assumpções básicas:
- As pessoas vão ajustar a direcção do seu percurso olhando para a direcção dos seus vizinhos directos
- As pessoas vão mudar de cor consoante a cor dos seus vizinhos directos
Claro que as pessoas são mais ou menos influenciáveis consoante a sua personalidade... uma personalidade muito forte obriga a não tirar os olhos do umbigo e neste caso, a não mudar facilmente a direcção ou a cor. Uma personalidade fraca obriga a que a pessoa seja completamente influenciável por quem a rodeia.
E depois disto, vamos brincar.
Podemos ver o que acontece quando não existe natalidade nem mortalidade, existem 50 pessoas e todas elas têm personalidade fraca, tal como na imagem em cima. Após 50 turnos, este é o resultado:
- As pessoas vão ajustar a direcção do seu percurso olhando para a direcção dos seus vizinhos directos
- As pessoas vão mudar de cor consoante a cor dos seus vizinhos directos
Claro que as pessoas são mais ou menos influenciáveis consoante a sua personalidade... uma personalidade muito forte obriga a não tirar os olhos do umbigo e neste caso, a não mudar facilmente a direcção ou a cor. Uma personalidade fraca obriga a que a pessoa seja completamente influenciável por quem a rodeia.
E depois disto, vamos brincar.
Podemos ver o que acontece quando não existe natalidade nem mortalidade, existem 50 pessoas e todas elas têm personalidade fraca, tal como na imagem em cima. Após 50 turnos, este é o resultado:
Reparem que logo após 50 turnos emerge uma estrutura. É visível o conjunto dos verdes e o conjunto, bem mais discreto, dos azuis. As pessoas formam grupos. Os traços que ligam pessoas representam as relações de influência. Quem está próximo está a influenciar-se mutuamente. Como no quotidiano, note-se, não se assume que os agentes possuem informação completa e que conhecem todo o estado de todos os outros agentes. Apenas olham para os vizinhos mais próximos. Mais alguns turnos e:
Toda a gente é verde. A falta de personalidade deu nisto, na homogeneidade. Note-se, não há nenum líder, não há seguidos nem seguidores. Há apenas pessoas iguais a influenciarem-se mutuamente, seguindo exactamente as mesmas regras. Ficaram todos verdes (podiam ter ficado laranja). Ninguém o poderia prever.
Avancemos.
Agora vamos ter natalidade e mortalidade. A personalidade continua fraca. Continuam as primeiras 50 pessoas iniciais:
Passados 200 e tal turnos...
notam-se várias estruturas, de várias cores. Nota-se o grupo dos azuis, o grupo dos bracos e azulados, o grupo dos violeta. Em baixo e à direita, uns avermelhados. Ninguém o poderia prever. Há mais diversidade, por haver morte e nascimento, por haver renovação. E à medida que o tempo passa...

parece que nos encaminhamos para uma maior homegeneidade. A evolução tem destas coisas: os verdes, brancos e violetas desapareceram, mas... o grupo emergente é o dos castanhos. Parece coeso, parece indestrutível, mas...

bastantes turnos depois as estruturas mudam, a ordem establecida altera-se... novos padrões emergem. Voltou a era dos brancos, nasceu a era dos verdes. Ninguém o poderia prever.
Podiamos brincar o dia inteiro, a noite inteira. Podemos arranjar inúmeras traduções para a realidade: os agentes podem ser pessoas, podem ser animais, bactérias. A cor pode ser uma opinião, pode ser uma ideologia, pode ser uma doença infectocontagiosa, pode ser a propensão para consumir, pode ser a confiança económica. A direcção tomada pelos agentes pode ser vista como uma relação afectiva, uma relação de interesse, pode significar a influência exercida. Os turnos podem ser anos, dias, meses.
Se não for o único a chegar acordado a esta parte, fica aqui o desafio de lançarem novas assumpções, de procurar paralelos com a realidade. De tentar interpertar os resultados.
Com regras tamanhamente simples, surgem padrões imprevisíveis e (mais ou menos) estáveis. Emergem comportamentos colectivos. Comportamentos que não cabem na economia neo-clássica, estruturas que não se conhecem à partida, padões que ninguém poderia prever. Sendo uma estrutura complexa, não é no mínimo arrogante afirmar que o produto de um mercado é sempre, previsivelmente, indiscutivelmente, invariavelmente, o melhor para todas as partes? Não é arrogante afirmar que as "imperfeições" são excepção e não são regra?
Podiamos brincar o dia inteiro, a noite inteira. Podemos arranjar inúmeras traduções para a realidade: os agentes podem ser pessoas, podem ser animais, bactérias. A cor pode ser uma opinião, pode ser uma ideologia, pode ser uma doença infectocontagiosa, pode ser a propensão para consumir, pode ser a confiança económica. A direcção tomada pelos agentes pode ser vista como uma relação afectiva, uma relação de interesse, pode significar a influência exercida. Os turnos podem ser anos, dias, meses.
Se não for o único a chegar acordado a esta parte, fica aqui o desafio de lançarem novas assumpções, de procurar paralelos com a realidade. De tentar interpertar os resultados.
Com regras tamanhamente simples, surgem padrões imprevisíveis e (mais ou menos) estáveis. Emergem comportamentos colectivos. Comportamentos que não cabem na economia neo-clássica, estruturas que não se conhecem à partida, padões que ninguém poderia prever. Sendo uma estrutura complexa, não é no mínimo arrogante afirmar que o produto de um mercado é sempre, previsivelmente, indiscutivelmente, invariavelmente, o melhor para todas as partes? Não é arrogante afirmar que as "imperfeições" são excepção e não são regra?
Aumento de roubos de colmeias preocupa apicultores
Hoje não li muitas notícias, mas valha-me isso, li das mais curiosas que por aí se escrevem. Uma que diz que o aumento do roubo de abelhas preocupa os apicultores. Acho curioso porque logo à partida é de salutar a criatividade crescente no seio da gatunagem. Com mais algum cuidado na análise, há aspectos nesta tendência que emergem e despertam questões. Despertam admiração até. Imagine-se o risco acrescido que é roubar abelhas. Jóias, ouro, notas, obras de arte, roupa, santos de igrejas, moedas, toda essa parafernália de objectos se tornam algo infatil de roubar, por não terem um ferrão para a ser espetado, pronto a por em causa a integridade física do assaltante. Convenhamos também, um anel de rubi não tem asas, ou a agilidade suficiente para poder escapar no acto do furto. Depois o transporte das ditas cujas. Aposto que uma perseguição em alta velocidade é deveras inóspito para a fragilidade de um ser tão cândido como uma abelha. Abelhas mortas não servirão os propósitos de quem as rouba e por isso o transporte tem de envolver um misto de velocidade e delicadeza, de energia e carinho, de vigor e amabilidade. Não será fácil, entenda-se. E não ficamos por aqui. Ultrapassada toda a logística do assalto propriamente dito, terá de vir a rentabilização das abelhas. A menos que as abelhas se destinem ao usufruto do próprio larápio (o que me custa imaginar), os pequenos animais terão de ser vendidos. Para tal e desde logo, as abelhas têm de ser contadas. Admiro a dedicação dos assaltantes, dispostos a algo tão entediante como contar o número de bichos tão minúlculos e irrequietos como o são as abelhas. Depois de contadas, a procura de compradores num mercado tão específico como imagino que seja o mercado das abelhas (e sem querer ferir o valor inestimáel de qualquer ser vivo, digam, quanto custará uma abelha?).
Neste ponto perguntar-se-ão (eu perguntei a mim prório), mas será que as colmeias são roubadas apenas por causa do mel e as pobres abelhas vêm por arrasto? Por causa do mel? Só por causa do mel? Não... para isso assaltava-se o continente, ou pingo doce, um pequeno comércio, uma loja turística que decerto teria um número considerável de potes de mel. Não... roubar abelhas siginifica astúcia, perícia. Significa viver no limite, vestir a camisola de uma profissão. Significa a vanguarda de um conjunto de homens e mulheres que desafiam a fronteira do roubável e fazem avançar os limites do empenho. Ao cuidado da polícia: se apanharem um assaltante de abelhas, não o encarcerem numa prisão. Ponham-no em conferências, ponham-no como orador em universidades de verão da jsd, porque esse indivíduo encerra em sí toda a aura empreendedora de que o país precisa para avançar.
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