sábado, 30 de novembro de 2013

O exercício de sempre...

O branco pálido dos rostos da plateia dava o mote ao acontecimento: o Inverno tinha chegado.  O pretexto para escarafunchar os roupeiros à procura da roupa mais quente também. Tinha chegado o frio cortante, cortante porque é seco, mas também porque só quando é seco é que corta realmente, e custa mais a aturar. Acho que é assim, no geral, não é só com o frio...

O café era o de sempre, naquele dia da semana de sempre, com as pessoas de sempre, mas já um pouco para lá da hora de sempre. Invariavelmente, havia sempre alguém mais atrasado, e não deu para começar às horas de sempre. Mas lá se começou, porque há sempre um começo, embora não se saiba sempre qual é que vai ser...

A Mariana estava fora no outro frio que faz lá em Londres. Os Tiagos orquestravam outro daqueles planos megalómanos para viverem a melhor aventura de sempre. A faculdade deles podia esperar, porque há sempre tempo... A Joana e o Ricardo conversavam prazerosamente, como sempre. Discutiam o café de sempre e reflectiam sobre os acontecimentos da semana, como sempre. A Joana queria ficar dedicada às suas causas, mudando o mundo daqueles que com ela se cruzam todos os dias, dando voz aos seus sonhos, mas também uma melhor voz àqueles que com ela sonham. Ricardo matutava no futuro, e depois no passado, e depois intercalava um com o outro, e ás vezes lá dava umas voltas no presente, como sempre. A conversa estava animada, aquecida pelo café escaldado na chávena, mas também por aquele aconchego que dá uma mesa cheia dos amigos de sempre.

Mas decidiu-se exercitar o sempre...

- Joana: Ás vezes penso que estou mesmo a ficar velha. Continuamos a vir aqui e os anos passam, e eu sinto-os realmente a passar. As coisas acontecem tão rapidamente, que parece que foi ontem que nos conhecemos todos...

- Ricardo: Eh, eu nem sequer me lembro o que jantei ontem...

- Joana: E daquelas férias na Zambujeira, lembras-te?

- Ricardo: Férias?
- Joana: Parece que foi ontem... Depois fomos para o Crato para casa da Mariana e estava aquele bafo insuportável... Estava lá o pessoal todo. Foi brutal...

- Ricardo: Pois...

- Joana: Nem parece que já estamos no Inverno outra vez... Agora, o que sabe mesmo bem, chegar a casa e comer aquela sopa da minha mãe... Ah, é verdade. Falei com a Mariana há duas semanas, ela perguntou se já sabes como vai ser a tua vida daqui para a frente?! Já nem me lembrava de te perguntar, parece que foi ontem que falámos sobre isso...

- Ricardo: Pois ainda não sei... Está tudo indefinido, mas é altura de começar a pensar em decisões.

- Joana: Lá estás tu e os teus mistérios. Bom, olha lá, e a Belinda? Tens sabido alguma coisa dela ultimamente? Parece que foi ontem que foi para a Austrália, ela é que está como quer... E nós aqui...

- Ricardo: Não sei, parece que passou tão pouco desde que ela foi... Tenho saudades dela, mas eu acho que ela fica bem com o Alex.

- Joana: O quê? Estás parvo? Já passaram 2 anos... O tempo tem passado a correr. Parece que foi ontem que saí da faculdade...

- Ricardo: A correr? Olha, os meus estão a fazer uma corrida contra o devagar, e estão a ganhar...

- Joana: Só podes estar a gozar? Já te disse, parece que foi ontem que entrei na faculdade, e olha agora para mim, que já estou a terminar a tese e a estagiar...

- Ricardo: Pois, eu não acho isso... Eu olho para trás, e vejo mudança.

- Joana: Pois...

- Ricardo: E olho para a frente e também... Essa é a graça disto tudo... Mudou tudo e o que eu dava como garantido para sempre, hoje dá-me vontade de rir... Não sei, talvez crescer seja isto...

- Joana: Pois não sei, lá estás tu com as tuas coisas...

- Ricardo: Bom, deixa lá... Que se lixe, ao menos ainda continuamos a ter o nosso cafezito às quartas...

E a conversa voltou ao de sempre... Mas o de sempre é que não voltou à conversa, nem a eles. Pelo menos por agora...


E os teus últimos 5 anos? Secos?

Da natureza humana (I)

Existem essencialmente três formas de entretenimento numa ponte aérea: reparar nas pessoas, ler a revista de cortesia da companhia ou assistir televisão. A primeira, pelo prazer que proporciona, merece uma análise separada. A segunda costuma ser simpática porque vem cheia de fotografias bonitas, mas não dura mais de 2 horas por mês. A última tende em ser menos interessante do que tentar dormir, mas hoje não foi.

O documentário falava sobre o problema da fome e do desperdício de alimentos no mundo. Embora este seja um tema que me parece relativamente conhecido (pelo menos no bom senso dos comuns) fiquei um pouco pensativo sobre a dimensão do assunto que era retratado de forma bastante emocional. Os números são grandes. Eu lembro-me que são grandes, mas não me lembro dos números. Só de um: 7.6% da população brasileira passa fome ou tem problemas de subnutrição. A conta do martelo dá uns 15 milhões de pessoas. Eu disse que os números são grandes.

O documentário falava também de acções sociais que têm vindo a ser desenvolvidas em resposta a este problema. As comuns os comuns já sabem. Interessei-me pela forma como empresários de distribuição e retalho alimentar realizam doações de alimentos ‘sem valor comercial’ mas com ‘valor nutritivo’. Aquela banana pretinha ou a cenoura partida ao meio que não vão fazer mal. Parece lógico. E mais do que isso, parecia fazer diferença para as pessoas atrás da câmara. Metade da cenoura, apenas, parecia fazer diferença. Havia também uma escolinha sediada numa favela no Rio de Janeiro que ensinava as donas de casa da comunidade a cozinhar com as cascas (e outros ‘desperdícios’) de suas frutas e verduras. Primeiro ri-me, depois tocou o sino.

O negócio criou-se imediatamente. Chama-se ‘Skin’, e somos uma cadeira multinacional de restaurantes éticos gourmet. Nascemos em 2013 da iniciativa de nossos fundadores e associados em combater a fome e a subnutrição no mundo. De nosso trabalho voluntário junto às comunidades mais desfavorecidas em toda a América do Sul, aprendemos o segredo de cozinhar a partir de ingredientes tipicamente considerados como ‘desperdício’, que são o foco de nossa arte. E como sabem, as cascas de frutas e vegetais concentram a maior parte das vitaminas e nutrientes dos ditos, apelando assim a uma população cada vez mais preocupada com a qualidade da sua alimentação.

A aceitação do público tem sido espantosa. Começando com apenas 3 pequenas unidades na zona oeste da cidade, hoje estamos presentes em 14 países com mais de 150 restaurantes. O nosso modelo de negócio é baseado numa oferta tripartida que se complementa. Temos o ‘Skin du Mer’. Uma evolução do sushi tradicional: o nosso arroz é preparado com casca, importado do sudeste asiático e especialmente tratado para ficar com um toque crocante excepcional. Da Amazónia chegam  peixes exóticos que preparamos da forma incomum, servindo-nos essencialmente da cabeça do animal. Temaki de bochecha de Piranha, com o nosso registado Arroz de Laos temperado com raspas de limão e coberto com sementes de Pimentão amarelo é o preferido de nossos clientes.

A nossa proposta no ‘Skin du Terre’ é diferente. Trabalhamos com uma variedade de cafés orgânicos, cervejas artesanais e sides doces e salgados. Nossas potato skins são um fenómeno nos fins de tarde ensolarados de Lisboa, acompanhadas por nossa cerveja Checa não filtrada. O nosso brigadeiro de raspas de cenoura e casca de banana faz as delícias dos mais gulosos.

Por último, o ‘Skin Express’. A nossa marca para grandes superfícies comerciais que gradualmente tem ganho espaço na rotina das pessoas. Nossa tecnologia para a rápida confecção de quiches revolucionou o dicionário de fast-food. O cliente pode escolher de forma personalizada e única o recheio de sua quiche (cascas de maça, pêra ou outras frutas, raízes de salsa ou coentros, sementes de vegetais, aquelas folhas do caule da laranja que vêm agarradas, preparadas na chapa com torresmo de leitão, etc.), que será preparada em nosso forno vitesse em apenas 54 segundos. Uma opção rápida, diferente, saudável e saborosa.

É indiscutível que o planeta se rendeu à nossa Skin Cousine, fortemente pautada na visão humanitária de nossos fundadores. Hoje, o mundo inteiro só quer saber da casca da melancia. Dos olhos do robalo. Daqueles fiozinhos castanhos do coco seco. Das flores da batata. Tudo o resto ficou triste e obsoleto. Não existe nenhuma opção mais chic e ética do que a nossa.


Estamos com um enorme problema em descobrir o que fazer com a polpa de tantas frutas e vegetais. E claro, com o resto da Piranha.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Cabaret

Não me esqueci que hoje é quinta. Mas como ela vai colar com a sexta, vou encavalitar na rubrica do Costa.

Deixo para o meio tempo um entretenimento de bom gosto. Esta música em particular tem o dom de remeter para um lugar qualquer que parece fantástico mas que desconheço como seja.

Talvez o título diga tudo.

Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=h0Y56-4rxAg

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

um provérbio

Dei com um provérbio curioso. Dizia que 'viajar é a única coisa em que podemos gastar dinheiro e ficar mais ricos'. Nem fui eu que o encontrei, foi o provérbio a mim. Estava escrito numa página qualquer, em busca de um leitor, caí ao pé dele e apanhou-me. Aliás, nem sei se é um provérbio, mas é curioso.

Curioso porque assume uma definição específica de riqueza. Afirma que essa não depende do dinheiro. Depende das vivências, de lugares conhecidos e pessoas descobertas (ou vice-versa), da novidade e da aventura. Se viajar é isso, mudar coisas do pote da novidade para o pote das antiguidades o provérbio torna-se terminante: ser rico é coleccionar velharias.
Por outro lado dá a machadada final na eficiência dos mercados. Se realmente existir o lugar mágico onde oferta e procura se equilibram de forma eficiente, o preço da transacção será perfeito isto é, a minha compra será feita pelo valor que o produto intrinsecamente vale. O dinheiro que gasto é exactamente igual ao valor daquilo que agora adquiri: uma viagem. Não estou mais rico, nem mais pobre. O provérbio torna-se terminante: os mercados eficientes não existem.

Mas isto são graçolas mascaradas de coisa séria. Os provérbios são para ser levados de forma leviana. Foi isso que fiz quando há três ou quatro dias estava indeciso sobre que livro comprar. Na loja, carregava parvamente dois exemplares, tolhido por uma guerra entre prós e contras. Lembrei-me, com um acaso que não sei justificar, do 'viajar é a única coisa em que podemos gastar dinheiro e ficar mais ricos'. Comprei o Viagens e outras Viagens do António Tabucchi. Há quem diga que ler é viajar, e duvidando disso, juntei a tónica de decidir ler um livro sobre viagens. Mesmo que o sofá não ganhe asas, hei-de enriquecer um pouco, julguei.

Agora que as peças se juntam, apercebo-me daquilo que carregam os provérbios.
Se pensarmos muito neles, deixam de fazer sentido.
Se os usarmos de forma leviana, levam-nos por caminhos estranhos face àquilo que originalmente pretendiam enunciar.
Se os usarmos e o resultado não for agradável, nunca nos recordaremos do seu uso, não o iremos publicitar, o esquecimento ditará a sua sina.

E aqui estamos: acontece que o tal livro que comprei é bem bonito.

Da Série Ruby Tuesday (I) (or Music on Tuesdays): Introdução à Rúbrica e 5 a Seco - ...e Business Models (?!)

Ponto prévio um: não tive acesso ao meu computador pessoal ontem porque me esqueci dele no trabalho.

Ponto prévio dois: não deixa de ser irónico que tenha deixado atrasar um dia tendo em conta o post que estava preparado ontem (ver abaixo).

Música: um dos tópicos que propus a mim mesmo (ou a mim próprio, nunca sei) nesta nova vida d'A Mentira. O tópico geral, o nome e o tópico em particular vêm de um blog que sigo, o NewAppsBlog, que tem uma rúbrica chamada Brazilian Music on Fridays. Acrescentei o 'Da Série' e o '(I)' porque fazem parte desta casa. Ora, eu escrevo às terças pelo que não tenho a sexta nem o Friday Night, Saturday Morning (versão do/as Nouvelle Vague) ou o "Quarta-feira, sempre desce o pano" (do Chico Buarque).

Tinha músicas para vários dias da semana e em último caso podia passar a saltar o meu dia quando quisesse escrever sobre música e chamar à rúbrica de Yesterday (Beatles). Mas não, calhou-me a terça e há o Ruby Tuesday dos Rolling Stones. Calha bem.(Entretanto o post deslizou para quarta-feira, "isn't that ironic?")

Venho dar-vos a conhecer uma banda brasileira e bem recente, os 5aseco. Descobria-a, justamente, na tal rúbrica Brazilian Music on Fridays.

Eu que gosto de música brasileira em particular e MPB em geral gostei muito. As canções eram novas mas soaram-me familiares. É um sentimento muito bom. Segue a primeira, 'Feliz para cachorro'

Também achei interessante o seguinte: não cobram pelo album (chamar CD nesta altura do campeonato é estúpido). Os Radiohead há uns anos lançaram o In Rainbows (excelente!) grátis - uma pessoa pagava o que quisesse pelo download (incluindo zero). Os 5 a Seco optaram pela modalidade Pay with a Tweet, ou seja, um post no tweeter ou facebook (este post aqui no blog não conta).

baixe aqui as músicas do álbum "ao vivo no auditório do ibirapuera" gratuitamente. em troca, você só precisa postar ou tweetar sobre isso. clique aqui para fazer o download https://www.paywithatweet.com/pay/?id=7a7db44f4fc2f721d07f967620dafcd5

Ora, isto é muito interessante porque é sintoma de uma indústria em profunda mudança, nomeadamente, quanto ao modelo de negócio. Os CDs são tecnologia obsoleta, a pirataria é um dado incontornável, as ferramentas de produção e promoção estão acessíveis a quem faz música (o benefício de escala das editoras diluiu-se); as bandas ganham mais dinheiro promovendo-se no MySpace e indo a Londres no fim-de-semana para tocar num Bar do que vendendo umas poucas centenas de CDs. Daí a importância da promoção e do pay with a tweet. Acho que quem gosta de gestão e negócios adora modelos de negócio e destes game-changers. Dito isto, à parte dos Concertos, os 5 a Seco hão-de ganhar dinheiro com merchandising (Camisetas e DVDs) que também vendem no site http://loja.5aseco.com.br/.

(Business models e música brasileira cutting edge num mesmo post? Este post parece custom-made para os nossos Quem Foram de serviço!)

Mesmo sem postar ou fazer o download, podem ouvir o álbum em stream no site. Repito, recomendo. E segue outra, 'ou não.'

Esta reflete uma longa tradição da música brasileira de 'Xii, o mundo está péssimo' mas 'há praia, água de côco e mulheres' (não confundir com "novela, missa e gibi")

Espero que gostem!

PS: da próxima vez o título será mais curto.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

and now for something completely different (XI) - o Regresso

O Fernando escreveu em Julho de 2011 um post intitulado and now for something completely different (X) - o fim rematando uma série genial de escrita criativa.

Este fim da série and now for something completely different anunciado pelo Fernando era, mais uma vez, uma grande mentira. Aos 70 anos, eles estão de volta rijos como o aço:

"O regresso era esperado há anos e já se imaginava que ia ser uma tarefa difícil comprar bilhetes para a reunião dos cinco Monty Python, anunciada na semana passada. O que talvez não fosse de esperar era que os bilhetes voassem em menos de um minuto, mais precisamente 43,5 segundos. Foram já anunciadas mais quatro datas mas comprar bilhetes também já é uma tarefa quase impossível."

"Eles bem disseram na conferência de imprensa da semana passada que iam ficar ricos com este regresso. Eric Idle brincou com a situação e disse que voltariam aos palcos para “tentar pagar a hipoteca de Terry Jones”. Pois bem, como era de esperar, o espectáculo, marcado para o dia 1 de Julho de 2014, esgotou em segundos e pelo mesmo caminho foram as novas datas anunciadas: 2, 3, 4 e 5 de Julho. Depois disto, não será difícil pagar a hipoteca e ainda ganhar algum dinheiro. Eles bem disseram e nós bem sabíamos."

Acordar no deserto.


O chão fedia, o ar fedia, tudo estava extraordinariamente perto do insuportável. Até o Sol parecia estar tão perto que quase me chamuscava as pestanas dos olhos que começava a abrir. Ouvia-os ao longe, sabia que estavam uns metros à frente, mas não os via. O calor fazia a paisagem tremer, distorcendo dois vultos misturados com os animais que impregnavam o ar quente.

O primeiro sinal de que eram mesmo eles foi a voz de Maria. Ouvi aquela rouquidão suave de radialista muito ao de leve, secundada por um cuspir de palavras de José. Nenhuma semelhança se podia encontrar entre o cuidado de dicção de Maria, expressa na sua voz granulada do pó de todos os dias, e o grunhir do marido. Ele não falava, certamente, melhor do que muitos dos seus animais, tendo apenas a sorte de se exprimir – e mal – numa língua perceptível aos humanos, mas ela parecia entendê-lo sem problemas.

Era capaz de jurar que a via ali, com um vestido tão leve como o do seu casamento, provavelmente bege. Lembrava-se como se tivesse sido no dia anterior. Talvez fosse até momentaneamente branco, mas o pó tratar-se-ia de o enfeitar mais ao jeito do deserto. Não tinha mangas, nunca tinha mangas. Os seus airosos braços estariam bem mais à mostra do que as suas ainda mais airosas pernas. Cheirava a uma flor qualquer que não sabia identificar, mas que pouco mascarava o cheiro descarado do suor dele, que lhe ensopava a camisa velha aos quadrados. José seria certamente alérgico a qualquer outro tipo de camisas e padrões, visto não haver memória dele a usar algo de muito diferente.

O pó assentou um pouco e quase que lhe vi o batom, vermelho, que sempre pensei que ela usava. No casamento estava igual, naturalmente. Talvez a cor fosse natural, mas nunca a olhei dessa maneira. O batom era essencial em todas as minhas fantasias, todas elas terminavam com um dos cantos dos meus lábios pintados de vermelho. Não sonhava muito alto, bastava um beijo de raspão, um cumprimentar de esguelha. Nem queria grandes momentos de amor, só este pequeno toque. Mas nem isso tinha. Era mais provável esse contorno de lábios estar desenhado algures no bigode de José, pintando-lhe os restos da sandes de queijo e pó que come religiosamente ao almoço e o palito que sempre mastiga à sobremesa.

Foi no casamento deles que me apaixonei por ela, foi no casamento deles que fantasiei com ela, entre brindes de tequila e vivas aos noivos. À medida que eles me subiam à cabeça, traziam a raiva escondida e afogada bem no fundo de algum órgão. Olhava-lhe o fato barato e ria-me sozinho. Via-lhe as botas, tão impróprias ali como gelados no Alasca, e ria-me mais alto e mais sozinho. Cheirava-lhe o fedor que emanava a cada passagem do número de dança que tão pouco entusiasmado fazia e ria-me ainda mais, depois de um primeiro momento em que fazia por revelar algo como uma expressão de nojo puro. E a tequila ia desaparecendo dos meus copos ao mesmo ritmo a que as pessoas iam fugindo da minha mesa. Reparava-lhe por fim na mulher, e chorava. Não chorei muito, antes de adormecer com toda a gente a olhar-me de cada vez mais longe.

Sentia-me agora perdido e a desfalecer. Queria água, queria que tapassem o Sol com uma pala gigante, só por uns minutos, até me recompor. Tinha os sapatos quase brancos. Cuspi-lhes as últimas pingas de saliva e esfreguei-os nas pernas opostas. Pintei-os de preto. Também sentia o pescoço apertado, pela gravata que reparava estar a usar. E foi no dia a seguir ao casamento que me desapaixonei por ela, entre vómitos secos e promessas de sobriedade eterna.