sábado, 7 de dezembro de 2013

Sobre a psicologia do "vim até aqui aguento a bronca até ao fim!"

O que conto aqui é a história real do quão ridícula e patética a influência dos media se pode tornar. Aqui vai:
Não sei se estão todos informados do fenómeno Tour 13, um velho prédio em Paris que antes de ser demolido foi transformado em obra de arte, ou como quem diz, grande tela para graffiti. Artistas internacionais convidados para subir o gabarito da coisa, e um tempo limitado de abertura ao publico que culminaria com a demolição da mesma. Arte efémera portanto, e quem a queria ver corria, verdadeiramente, contra o tempo.

Confesso que tentei ir lá, uma vez, mas depois de uma hora de espera na fila e a adivinhar outro bom par delas desisti. Mas tenho amigos mais corajosos!
Heron convida-me para ir a Tour 13 numa terça de manhã. “não vai estar ninguém, dia de semana, está tudo a trabalhar! E estamos lá às nove e meia e pela hora de almoço já estamos livres!”.

Nove e meia da manha estava ele na fila da Tour 13, as dez junta-se o resto do grupo.
E a espera começa:

11h

12h

13h

14h

Quatro horas na fila. “bem, agora já não consigo ir as aulas e não, e depois de quatro horas não pode faltar muito mais. Ficamos!”

15h

16h

Ninguém tem fome?

17h

18h

19h

Agora a coisa está difícil… Mas quem aguenta até aqui aguenta mais um pouco!

20h

21h

22h

23h

Aleluia meu Senhor!

E finalmente entraram. A torre estava lotadíssima, não se via uma parede inteira, completamente tapadas por uma multidão amontoada. O calor era insuportável, casa de banho não havia, o cansaço esgotante. Subiram os nove andares e saíram em dez minutos, e o que viram foi nada.
Foram no dia a seguir ao site ver as imagens porque metade delas ninguém se lembrava!

Agora a Tour 13 está lá, solitária, fechada e pronta a ser demolida um dia destes.
Uma média de 7 horas de espera para uma torre grafitada cuja demolição podia ser muito bem adiada.

Até que ponto as pessoas se deixam estupidificar?



ps. e para quem quiser matar a curiosidade aqui fica o link
http://www.bfmtv.com/diaporama/tour-paris-13-lexpo-ephemere-a-taille-dimmeuble-236/image-13/

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

(Desa)bafo do preço da chuva...

Está quente e custa a respirar... O verão começa-se a aproximar e o calor aperta. Como se não bastasse, tens passado os últimos dias a escarafunchar o nariz no rolo de papel da cozinha e tens gasto pequenas fortunas em lenços de papel. Fizeste “shotgun” aos guardanapos lá de casa e eles dormem ao teu lado na cama. Mais ninguém pode usar, são teus. Só não valem folhas A4 ainda porque arranham p’ra caraças e as ideias têm que ficar eternizadas nesse papel. Estás outra vez com aquela tua sinusite impossível, que te deixa o nariz assado de tanto te assuares, a vista a chorar e te dá um mal estar do caraças, sem paciência para nada... Ah, e está um calor impossível.

Acordaste cedo, ainda meio lerdo, porque aqueles teus anti-histamínicos deixam-te totalmente grogue durante os primeiros instantes do dia. Banho, fato, cereais, a rotina de sempre. Fizeste o percurso habitual até ao escritório, mas hoje já não deu para usares as duas alças da mochila do portátil ás costas... A recompensa de a levar no braço foi uma camisa suada e não totalmente encharcada. O dia passou-se e foi mais um daqueles dias no escritório. Nada de novo.
Sais cansado e agastado depois de mais uma jornada de trabalho, depois de mais uma reunião onde descobres que amanhã vai ser pior que hoje, mas pensas que é sexta-feira e não vai ser assim tão mau (mas vai). Quando ainda vais a pensar no amanhã, deparas-te com o dilúvio de hoje. A chuva cai interrompida e violentamente... Pensas: “Porra, esqueci-me outra vez da porcaria do chapéu. A ver se isto passa...”. Passar passa, porque passa sempre, mas isto é São Paulo e vai inundar rápido... Corres até à estação de comboio, estrategicamente colocada junto ao escritório. Vais no sentido do fluxo dos milhões da cidade e já não é só a chuva que sente que sentes colada ao corpo... A humidade daquele trem equiparava-se a Manaus e a densidade era típica de Sampa.

Sais na tua estação, decidido em comprar mais um chapéu para te esqueceres também desse em casa da próxima vez. Pões a mão ao bolso e tens 10 reais: “Opá boa, deve dar!”. Mas não... No Brasil dão-se aulas de Pricing a cada esquina: “Ah, está a chover. Ah, há mais procura! E o chapéu passou a 20 reais!”. Estás sem dinheiro trocado e o caixa multibanco era só lá no cara... Tentas negociar, mas não dá, hoje enquanto chover custa 20, quando parar volta a 10... Vais ao próximo vendedor, mas o cartel estava montado, e pensas: “Foda-se, vou a pé! É já ali...” Mas o já ali, são 2 km... É o preço de morar perto em Sampa.

Pões o pé fora da estação e o caos estava a dar um concerto. O barulho das buzinas era ensurdecedor, o trânsito estava para lá do caótico habitual, as ruas inundadas e a múvuca munida dos seus chapéus estava a fazer-me pontaria ou então estavam demasiado ocupados em tentar chegar a casa rápido... E a chuva caía agora ainda mais violentamente, mais quente, e tu no meio disto tudo, doente, ensopado dos pés à cabeça e com a água a escorrer-te pela ponta das mãos...  Desistes! A chuva a bater-te na cara até te parecia bem, pena estares doente... Os 2km foram feitos com o pensamento no banho quente e na refeição tranquila com os amigos lá de casa... Mas não, esta era a semana das quedas: primeiro uma ala do estádio do Itaquerão (sede inaugural da Copa, pelo menos, acho que o plano se mantém), depois o prédio de 5 andares em construção que ruiu (?!), e finalmente, a árvore da rua ao lado de casa, que se desiquilibrou para cima de 2 carros e resolveu levar a eletricidade do Bairro toda atrás...


Chegas a casa a pingar, sobes a pé porque o elevador não mexe, os sapatos ficam à porta, trocas de roupa e tens que ir jantar fora, porque não consegues cozinhar porque não vês um palmo à frente dos olhos... E aí pensas: “Foda-se, amanhã levo o chapéu, ou pago o preço da chuva”.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Uma série de respostas

Resposta para o Costa

Ela: Senhor, não existe nenhum bilhete emitido em seu nome.
Ele: Desculpe?
Ela: Não temos registado em nosso sistema nenhum bilhete emitido em seu nome.
Ele: Isso é impossível Senhora. Eu comprei o bilhete há três dias atrás, estou certo disso.
Ela: Vou confirmar novamente. Pois, é como lhe disse, não temos nenhum registo em seu nome.
Ele: Não estou a perceber… que dia é hoje?
Ela: Cinco de Dezembro de mil novecentos e trinta.
Ele: Sexta-feira?
Ela: Exactamente Senhor, sexta-feira.
Ele: Pois, exactamente. Só para confirmar Senhora, estamos em Lisboa não estamos?
Ela: Desculpe?
Ele: Gostaria apenas de confirmar onde estamos pois por vezes eu ando meio distraído… este é Aeroporto de Lisboa não é?
Ela: Sim Senhor… é o aeroporto de Lisboa.

(Ela começa a achar que Ele é estranho)

Ele: Então eu tenho a certeza que estou certo! Por favor, confirme novamente Senhora. Ainda nada? Não estou mesmo a perceber o que possa ter acontecido.
Ela: Nem eu…

(Ele olha para o telhado do aeroporto)

Ele: Diga-me uma coisa por favor. Que nome está a verificar em seu sistema?
Ela: Como assim? O seu nome!
Ele: Claro, mas qual?
Ela: O nome que está escrito em seu Passaporte. Senhor Fernando Pessoa.
Ela: Xiiii… merda. Ora tente lá por favor Ricardo Reis ou Alberto Caeiro ou… como se chama o outro mesmo? Não se assuste Senhora, somos todos a mesma pessoa.

(Claro que isto é tudo mentira. Em 1930 ainda não existia o Aeroporto de Lisboa. Nem o ‘sistema’. Mas se existissem, Ele certamente teria que pagar uma taxa para alterar o nome).

Resposta para o Luís

Também já pensei porque é que as pessoas escrevem em Blogs. Porém, como mostraste, a multiplicidade de hipóteses torna a análise um tanto vaga de conclusões. No caso destes Mentirosos todos, de quem posso falar com um pouco mais de propriedade, acho que é só mesmo para alimentar o Ego. Embora não tenha sido o primeiro a pensar isso.

Resposta para o Marques

Na verdade também não é resposta nenhuma, mas sim um conjunto de pensamentos consequentes de tua última Mentira.

Achei graça à tua intitulação de liberal (e não ultraliberal) assim com a boca cheia. Não pelo que isso representa em termos da minha compreensão da tua pessoa, mas pelo facto de eu não conseguir categorizar a minha posição política numa palavra. Ou em poucas, vá. Sinto que possuo um conjunto de opiniões e posições face à realidade política, económica e social que podem aproximar-se mais ou menos de uma percepção bastante incompleta que tenho de um número de correntes ideológicas formais. Não estou a falar de bandeiras partidárias. Acredito também que são mutáveis as posições individuais em função de novas experiências que nos confrontam com realidades diferentes de forma constante. No fundo, parece que quanto mais conheço mais difícil fica etiquetar uma dada predisposição de pensamento. Ainda assim mostra-se cada vez mais lógico que a forma mais lógica de ideologia política estará necessariamente entre o neoliberalismo e a social-democracia, com todo o risco que os meios-termos implicam. Mas prefiro o risco do meio-termo ao risco do radicalismo. Uma resolução de ano-novo que já migra na prateleira faz anos é precisamente estudar, de forma estruturada e académica, a história das ideias políticas. Até lá, vou lendo pontas soltas que vão ajudando a ganhar vontade de atacar o todo.

E li esta semana uma ponta solta que me despertou interesse (sim, tudo isto foi para chegar aqui). Chama-se a Terceira Via (ou The Third Way) e é “uma corrente da ideologia social-democrata, (…) promovida por alguns partidários do liberalismo social. Tenta reconciliar a direita e a esquerda, através de uma política económica ortodoxa e de uma política social progressista (…) parece ser uma corrente que apresenta uma conciliação entre capitalismo de livre mercado e socialismo democrático” (direitinho da Wiki). Vocês que são muito mais educados do que eu, já devem saber a história deste movimento que falhou redondo precisamente por estar no meio-termo. Morreu nas mãos dos Clintons e Blairs desta vida. Vale leu um pouco de Anthony Giddens para conhecer melhor. Acho que isto ainda vai dar que falar no futuro.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

pinheiros de Natal

Na escola primária multiplicam-se composições com o tema 'o que é o Natal?'. Eu cá gosto do Natal. O que não interessa para nada, convenhamos, a pergunta quer apenas saber o que é o Natal e não o que eu acho acerca do Natal. Assumo com humildade que não sei nada do que vai nas cabeças das outras pessoas. Objectivamente, o Natal é a soma daquilo que todas as pessoas pensam acerca do Natal. Por isso a resposta à pergunta o que é o Natal é fácil: não sei. Talvez a professora tenha incorrido no erro comum de deixar incompleta uma pergunta que se julga subentendida: em composições vindouras, faça por adequar o enunciado à exequibilidade.

Para mim, Europeu confesso, o Natal é frio, neve, pinheiros, lojas enfeitadas, iluminação, nascimento de Jesus. A um carioca, tirem o frio e a neve. A um etíope, tirem as lojas enfeitadas, a iluminação. A um indígena pagão tirem o nascimento de Jesus e ponham o solstício de Inverno. No meio disto, fica a teimosia do pinheiro. De formas várias, há pinheiros em todos os continentes, a árvore é uma praga. Professora, afinal sei a resposta: o Natal são pinheiros (o Natal pode ser quando um homem quiser somente pela evidência dos pinheiros serem árvores de folha persistente).

No país do pequeno Carlitos, criança reguila, aconteceu pois um episódio curioso. Por volta de Fevereiro, os pinheiros começaram a murchar. Secaram e caíram sem causa aparente. O pânico instalou-se, não por causa dos perigos que a falta de pinheiros podem causar num ecossistema biológico, mas porque nesse país deixaria de haver Natal. O conselho de ministros reuniu-se em torno do ministro líder. Dias de negociação levaram à arquitectura de um plano. Os pinheiros naturais tinham que ser obrigatoriamente substituídos. Um apelo foi feito à nação, só um aumento de impostos extraordinário poderia tornar exequível o resgate do Natal. Foi referendada a pergunta, 'Deseja salvar o Natal?'. O sim ganhou.

Todo o plástico que o país conseguia produzir ou importar foi canalizado para a criação de pinheiros artificiais. Criteriosamente, foram colocados onde antes se erguiam, perdoem-me o abuso de linguagem, pinheiros de carne e osso. Por volta de Novembro, já ninguém se lembrava do que era resina, pinhas a cair ou o chilrear de pássaros em ninhos. O Natal estava salvo, mesmo que agora não houvesse, naquele país, plástico ou dinheiro disponível para as estrelas, bolas, e outros enfeites coloridos.

Por volta de Janeiro, sentado no baloiço do parque da cidade, o pequeno Carlitos, criança reguila, mastigava pastilha elástica enquanto brincava com o indicador dentro do próprio nariz. Viu homens com químicos a aleijar os pinheiros. Não compreendeu porque é que o faziam, sendo as árvores tão bonitas e saudáveis. Meses mais tarde, quando os exemplares a fingir foram plantados, o Carlitos achou prontamente que as pessoas que viu naquele dia eram keynesianos vestidos de fato-de-macaco. Mas eram somente os funcionários da empresa de plástico daquele país, alguns dos quais até ministros.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Porquê escrever em blogues?

Há algum tempo tive esta dúvida, dei por mim a pensar nisto. Claro que entretanto adormeci, ou arranjei algo melhor para fazer. Talvez pura e simplesmente tenha ouvido cair um lápis no andar de cima ou uma buzina na rua, que é o que basta para me fazer alhear das ideias que tenho (felizmente, elas vêm em grande número e com uma periodicidade constante).

Vamos por partes. Em primeiro lugar, porquê escrever? Esta é uma pergunta que surge em quase todas as entrevistas a escritores. Gostando eu de ler entrevistas e interessando-me por literatura, já vi um número ridículo de respostas diferentes. Não é em cada cabeça, sua sentença, mas quase. Para uns é uma necessidade quase fisiológica, para outros um trabalho, para uns a vontade de viver outras vidas, para outros uma forma de expurgar os males que os assolam. Na verdade, não me revejo em qualquer uma destas opções. Mas também não sou um escritor, pode ser disso.

Depois, porque escrever um blogue? Bom, imagino que as hipóteses acima referidas se podem manter, mas há algumas novidades: uns escrevem em blogues com esperanças que isso lhes impulsione a carreira (é giro vê-los a comentar nos blogues mais lidos), outros porque acham que têm algo a dizer, outros porque acham que têm a obrigação de o fazer, para não defraudar os seus leitores.

Acabo de perceber que não me revejo propriamente em nenhuma destas hipóteses. Sei porque escrevi este texto - quando pensei no assunto não cheguei a nenhuma conclusão, e às vezes pensar por escrito torna tudo mais claro - mas isso não me leva a lado nenhum (como este texto não levou a nenhuma conclusão). Ao fim ao cabo, acho que escrevo porque me apetece. Pode ser?

Da série: “Só o excesso de tolerância alimenta a ditadura das minorias!” (II)

Eu queria ter escrito sobre este assunto a semana passada, mas como o meu facebook estava inundado de indignados anti-pepsi, resolvi traze-lo para esta semana.

Ao que parece, no mês passado os Suíços recusaram limitar salários 'milionários' com mais de 65% a ir às urnas votar contra a imposição legal de limites aos salários mais altos, ou seja, quase 2/3 disseram "não" à proposta de referendo que pretendia limitar os salários mais altos de uma empresa a serem no máximo 12 vezes superiores aos salários mais baixos da mesma instituição.


A ideia por detrás desta proporção é que numa empresa ninguém ganhe mais num mês do que outros ganham num ano inteiro. Ao contrário do que o Fernando estaria à espera, os suíços não aprovaram por uma simples razão: perda de competitividade e prosperidade da economia suíça e a atratividade do país.

Aqui em Portugal, a JS quer importar o "Gato Gordo" da Suiça. A proposta dos jovens socialistas tem por base, não só o exemplo suíço, mas também o exemplo francês que já define que um gestor de uma empresa pública só pode ganhar 20 vezes mais do que o trabalhador mais mal pago.

O 1º pensamento a que me vem à cabeça quando penso nisto é que uma coisas destas seria aprovada em Portugal. Em certas partes do mundo, como nos EUA, na Suiça ou em Portugal, há CEOs que ganham 200 vezes o salário do funcionario mais baixo. Eu não tenho os nºs de Portugal, mas tenho este TOP da Suiça:


Eu, como liberal que sou (e aqui não confundir com ultra-liberal), não acho que 1:12 seja uma proporção razoável mas acho que estabelecer-se legalmente um teto para os salários milionários é algo que faz sentido. Isto porque uma proporção de 1:200 é uma imoralidade e uma obscenidade.

É uma medida que pela Europa fora está a ser discutida e eu acho que merece ser discutida. Mas de uma coisa é certa: eu simpatizo imenso com países onde uma medida populista é chumbada em massa.

sábado, 30 de novembro de 2013

O exercício de sempre...

O branco pálido dos rostos da plateia dava o mote ao acontecimento: o Inverno tinha chegado.  O pretexto para escarafunchar os roupeiros à procura da roupa mais quente também. Tinha chegado o frio cortante, cortante porque é seco, mas também porque só quando é seco é que corta realmente, e custa mais a aturar. Acho que é assim, no geral, não é só com o frio...

O café era o de sempre, naquele dia da semana de sempre, com as pessoas de sempre, mas já um pouco para lá da hora de sempre. Invariavelmente, havia sempre alguém mais atrasado, e não deu para começar às horas de sempre. Mas lá se começou, porque há sempre um começo, embora não se saiba sempre qual é que vai ser...

A Mariana estava fora no outro frio que faz lá em Londres. Os Tiagos orquestravam outro daqueles planos megalómanos para viverem a melhor aventura de sempre. A faculdade deles podia esperar, porque há sempre tempo... A Joana e o Ricardo conversavam prazerosamente, como sempre. Discutiam o café de sempre e reflectiam sobre os acontecimentos da semana, como sempre. A Joana queria ficar dedicada às suas causas, mudando o mundo daqueles que com ela se cruzam todos os dias, dando voz aos seus sonhos, mas também uma melhor voz àqueles que com ela sonham. Ricardo matutava no futuro, e depois no passado, e depois intercalava um com o outro, e ás vezes lá dava umas voltas no presente, como sempre. A conversa estava animada, aquecida pelo café escaldado na chávena, mas também por aquele aconchego que dá uma mesa cheia dos amigos de sempre.

Mas decidiu-se exercitar o sempre...

- Joana: Ás vezes penso que estou mesmo a ficar velha. Continuamos a vir aqui e os anos passam, e eu sinto-os realmente a passar. As coisas acontecem tão rapidamente, que parece que foi ontem que nos conhecemos todos...

- Ricardo: Eh, eu nem sequer me lembro o que jantei ontem...

- Joana: E daquelas férias na Zambujeira, lembras-te?

- Ricardo: Férias?
- Joana: Parece que foi ontem... Depois fomos para o Crato para casa da Mariana e estava aquele bafo insuportável... Estava lá o pessoal todo. Foi brutal...

- Ricardo: Pois...

- Joana: Nem parece que já estamos no Inverno outra vez... Agora, o que sabe mesmo bem, chegar a casa e comer aquela sopa da minha mãe... Ah, é verdade. Falei com a Mariana há duas semanas, ela perguntou se já sabes como vai ser a tua vida daqui para a frente?! Já nem me lembrava de te perguntar, parece que foi ontem que falámos sobre isso...

- Ricardo: Pois ainda não sei... Está tudo indefinido, mas é altura de começar a pensar em decisões.

- Joana: Lá estás tu e os teus mistérios. Bom, olha lá, e a Belinda? Tens sabido alguma coisa dela ultimamente? Parece que foi ontem que foi para a Austrália, ela é que está como quer... E nós aqui...

- Ricardo: Não sei, parece que passou tão pouco desde que ela foi... Tenho saudades dela, mas eu acho que ela fica bem com o Alex.

- Joana: O quê? Estás parvo? Já passaram 2 anos... O tempo tem passado a correr. Parece que foi ontem que saí da faculdade...

- Ricardo: A correr? Olha, os meus estão a fazer uma corrida contra o devagar, e estão a ganhar...

- Joana: Só podes estar a gozar? Já te disse, parece que foi ontem que entrei na faculdade, e olha agora para mim, que já estou a terminar a tese e a estagiar...

- Ricardo: Pois, eu não acho isso... Eu olho para trás, e vejo mudança.

- Joana: Pois...

- Ricardo: E olho para a frente e também... Essa é a graça disto tudo... Mudou tudo e o que eu dava como garantido para sempre, hoje dá-me vontade de rir... Não sei, talvez crescer seja isto...

- Joana: Pois não sei, lá estás tu com as tuas coisas...

- Ricardo: Bom, deixa lá... Que se lixe, ao menos ainda continuamos a ter o nosso cafezito às quartas...

E a conversa voltou ao de sempre... Mas o de sempre é que não voltou à conversa, nem a eles. Pelo menos por agora...


E os teus últimos 5 anos? Secos?

Da natureza humana (I)

Existem essencialmente três formas de entretenimento numa ponte aérea: reparar nas pessoas, ler a revista de cortesia da companhia ou assistir televisão. A primeira, pelo prazer que proporciona, merece uma análise separada. A segunda costuma ser simpática porque vem cheia de fotografias bonitas, mas não dura mais de 2 horas por mês. A última tende em ser menos interessante do que tentar dormir, mas hoje não foi.

O documentário falava sobre o problema da fome e do desperdício de alimentos no mundo. Embora este seja um tema que me parece relativamente conhecido (pelo menos no bom senso dos comuns) fiquei um pouco pensativo sobre a dimensão do assunto que era retratado de forma bastante emocional. Os números são grandes. Eu lembro-me que são grandes, mas não me lembro dos números. Só de um: 7.6% da população brasileira passa fome ou tem problemas de subnutrição. A conta do martelo dá uns 15 milhões de pessoas. Eu disse que os números são grandes.

O documentário falava também de acções sociais que têm vindo a ser desenvolvidas em resposta a este problema. As comuns os comuns já sabem. Interessei-me pela forma como empresários de distribuição e retalho alimentar realizam doações de alimentos ‘sem valor comercial’ mas com ‘valor nutritivo’. Aquela banana pretinha ou a cenoura partida ao meio que não vão fazer mal. Parece lógico. E mais do que isso, parecia fazer diferença para as pessoas atrás da câmara. Metade da cenoura, apenas, parecia fazer diferença. Havia também uma escolinha sediada numa favela no Rio de Janeiro que ensinava as donas de casa da comunidade a cozinhar com as cascas (e outros ‘desperdícios’) de suas frutas e verduras. Primeiro ri-me, depois tocou o sino.

O negócio criou-se imediatamente. Chama-se ‘Skin’, e somos uma cadeira multinacional de restaurantes éticos gourmet. Nascemos em 2013 da iniciativa de nossos fundadores e associados em combater a fome e a subnutrição no mundo. De nosso trabalho voluntário junto às comunidades mais desfavorecidas em toda a América do Sul, aprendemos o segredo de cozinhar a partir de ingredientes tipicamente considerados como ‘desperdício’, que são o foco de nossa arte. E como sabem, as cascas de frutas e vegetais concentram a maior parte das vitaminas e nutrientes dos ditos, apelando assim a uma população cada vez mais preocupada com a qualidade da sua alimentação.

A aceitação do público tem sido espantosa. Começando com apenas 3 pequenas unidades na zona oeste da cidade, hoje estamos presentes em 14 países com mais de 150 restaurantes. O nosso modelo de negócio é baseado numa oferta tripartida que se complementa. Temos o ‘Skin du Mer’. Uma evolução do sushi tradicional: o nosso arroz é preparado com casca, importado do sudeste asiático e especialmente tratado para ficar com um toque crocante excepcional. Da Amazónia chegam  peixes exóticos que preparamos da forma incomum, servindo-nos essencialmente da cabeça do animal. Temaki de bochecha de Piranha, com o nosso registado Arroz de Laos temperado com raspas de limão e coberto com sementes de Pimentão amarelo é o preferido de nossos clientes.

A nossa proposta no ‘Skin du Terre’ é diferente. Trabalhamos com uma variedade de cafés orgânicos, cervejas artesanais e sides doces e salgados. Nossas potato skins são um fenómeno nos fins de tarde ensolarados de Lisboa, acompanhadas por nossa cerveja Checa não filtrada. O nosso brigadeiro de raspas de cenoura e casca de banana faz as delícias dos mais gulosos.

Por último, o ‘Skin Express’. A nossa marca para grandes superfícies comerciais que gradualmente tem ganho espaço na rotina das pessoas. Nossa tecnologia para a rápida confecção de quiches revolucionou o dicionário de fast-food. O cliente pode escolher de forma personalizada e única o recheio de sua quiche (cascas de maça, pêra ou outras frutas, raízes de salsa ou coentros, sementes de vegetais, aquelas folhas do caule da laranja que vêm agarradas, preparadas na chapa com torresmo de leitão, etc.), que será preparada em nosso forno vitesse em apenas 54 segundos. Uma opção rápida, diferente, saudável e saborosa.

É indiscutível que o planeta se rendeu à nossa Skin Cousine, fortemente pautada na visão humanitária de nossos fundadores. Hoje, o mundo inteiro só quer saber da casca da melancia. Dos olhos do robalo. Daqueles fiozinhos castanhos do coco seco. Das flores da batata. Tudo o resto ficou triste e obsoleto. Não existe nenhuma opção mais chic e ética do que a nossa.


Estamos com um enorme problema em descobrir o que fazer com a polpa de tantas frutas e vegetais. E claro, com o resto da Piranha.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Cabaret

Não me esqueci que hoje é quinta. Mas como ela vai colar com a sexta, vou encavalitar na rubrica do Costa.

Deixo para o meio tempo um entretenimento de bom gosto. Esta música em particular tem o dom de remeter para um lugar qualquer que parece fantástico mas que desconheço como seja.

Talvez o título diga tudo.

Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=h0Y56-4rxAg

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

um provérbio

Dei com um provérbio curioso. Dizia que 'viajar é a única coisa em que podemos gastar dinheiro e ficar mais ricos'. Nem fui eu que o encontrei, foi o provérbio a mim. Estava escrito numa página qualquer, em busca de um leitor, caí ao pé dele e apanhou-me. Aliás, nem sei se é um provérbio, mas é curioso.

Curioso porque assume uma definição específica de riqueza. Afirma que essa não depende do dinheiro. Depende das vivências, de lugares conhecidos e pessoas descobertas (ou vice-versa), da novidade e da aventura. Se viajar é isso, mudar coisas do pote da novidade para o pote das antiguidades o provérbio torna-se terminante: ser rico é coleccionar velharias.
Por outro lado dá a machadada final na eficiência dos mercados. Se realmente existir o lugar mágico onde oferta e procura se equilibram de forma eficiente, o preço da transacção será perfeito isto é, a minha compra será feita pelo valor que o produto intrinsecamente vale. O dinheiro que gasto é exactamente igual ao valor daquilo que agora adquiri: uma viagem. Não estou mais rico, nem mais pobre. O provérbio torna-se terminante: os mercados eficientes não existem.

Mas isto são graçolas mascaradas de coisa séria. Os provérbios são para ser levados de forma leviana. Foi isso que fiz quando há três ou quatro dias estava indeciso sobre que livro comprar. Na loja, carregava parvamente dois exemplares, tolhido por uma guerra entre prós e contras. Lembrei-me, com um acaso que não sei justificar, do 'viajar é a única coisa em que podemos gastar dinheiro e ficar mais ricos'. Comprei o Viagens e outras Viagens do António Tabucchi. Há quem diga que ler é viajar, e duvidando disso, juntei a tónica de decidir ler um livro sobre viagens. Mesmo que o sofá não ganhe asas, hei-de enriquecer um pouco, julguei.

Agora que as peças se juntam, apercebo-me daquilo que carregam os provérbios.
Se pensarmos muito neles, deixam de fazer sentido.
Se os usarmos de forma leviana, levam-nos por caminhos estranhos face àquilo que originalmente pretendiam enunciar.
Se os usarmos e o resultado não for agradável, nunca nos recordaremos do seu uso, não o iremos publicitar, o esquecimento ditará a sua sina.

E aqui estamos: acontece que o tal livro que comprei é bem bonito.

Da Série Ruby Tuesday (I) (or Music on Tuesdays): Introdução à Rúbrica e 5 a Seco - ...e Business Models (?!)

Ponto prévio um: não tive acesso ao meu computador pessoal ontem porque me esqueci dele no trabalho.

Ponto prévio dois: não deixa de ser irónico que tenha deixado atrasar um dia tendo em conta o post que estava preparado ontem (ver abaixo).

Música: um dos tópicos que propus a mim mesmo (ou a mim próprio, nunca sei) nesta nova vida d'A Mentira. O tópico geral, o nome e o tópico em particular vêm de um blog que sigo, o NewAppsBlog, que tem uma rúbrica chamada Brazilian Music on Fridays. Acrescentei o 'Da Série' e o '(I)' porque fazem parte desta casa. Ora, eu escrevo às terças pelo que não tenho a sexta nem o Friday Night, Saturday Morning (versão do/as Nouvelle Vague) ou o "Quarta-feira, sempre desce o pano" (do Chico Buarque).

Tinha músicas para vários dias da semana e em último caso podia passar a saltar o meu dia quando quisesse escrever sobre música e chamar à rúbrica de Yesterday (Beatles). Mas não, calhou-me a terça e há o Ruby Tuesday dos Rolling Stones. Calha bem.(Entretanto o post deslizou para quarta-feira, "isn't that ironic?")

Venho dar-vos a conhecer uma banda brasileira e bem recente, os 5aseco. Descobria-a, justamente, na tal rúbrica Brazilian Music on Fridays.

Eu que gosto de música brasileira em particular e MPB em geral gostei muito. As canções eram novas mas soaram-me familiares. É um sentimento muito bom. Segue a primeira, 'Feliz para cachorro'

Também achei interessante o seguinte: não cobram pelo album (chamar CD nesta altura do campeonato é estúpido). Os Radiohead há uns anos lançaram o In Rainbows (excelente!) grátis - uma pessoa pagava o que quisesse pelo download (incluindo zero). Os 5 a Seco optaram pela modalidade Pay with a Tweet, ou seja, um post no tweeter ou facebook (este post aqui no blog não conta).

baixe aqui as músicas do álbum "ao vivo no auditório do ibirapuera" gratuitamente. em troca, você só precisa postar ou tweetar sobre isso. clique aqui para fazer o download https://www.paywithatweet.com/pay/?id=7a7db44f4fc2f721d07f967620dafcd5

Ora, isto é muito interessante porque é sintoma de uma indústria em profunda mudança, nomeadamente, quanto ao modelo de negócio. Os CDs são tecnologia obsoleta, a pirataria é um dado incontornável, as ferramentas de produção e promoção estão acessíveis a quem faz música (o benefício de escala das editoras diluiu-se); as bandas ganham mais dinheiro promovendo-se no MySpace e indo a Londres no fim-de-semana para tocar num Bar do que vendendo umas poucas centenas de CDs. Daí a importância da promoção e do pay with a tweet. Acho que quem gosta de gestão e negócios adora modelos de negócio e destes game-changers. Dito isto, à parte dos Concertos, os 5 a Seco hão-de ganhar dinheiro com merchandising (Camisetas e DVDs) que também vendem no site http://loja.5aseco.com.br/.

(Business models e música brasileira cutting edge num mesmo post? Este post parece custom-made para os nossos Quem Foram de serviço!)

Mesmo sem postar ou fazer o download, podem ouvir o álbum em stream no site. Repito, recomendo. E segue outra, 'ou não.'

Esta reflete uma longa tradição da música brasileira de 'Xii, o mundo está péssimo' mas 'há praia, água de côco e mulheres' (não confundir com "novela, missa e gibi")

Espero que gostem!

PS: da próxima vez o título será mais curto.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

and now for something completely different (XI) - o Regresso

O Fernando escreveu em Julho de 2011 um post intitulado and now for something completely different (X) - o fim rematando uma série genial de escrita criativa.

Este fim da série and now for something completely different anunciado pelo Fernando era, mais uma vez, uma grande mentira. Aos 70 anos, eles estão de volta rijos como o aço:

"O regresso era esperado há anos e já se imaginava que ia ser uma tarefa difícil comprar bilhetes para a reunião dos cinco Monty Python, anunciada na semana passada. O que talvez não fosse de esperar era que os bilhetes voassem em menos de um minuto, mais precisamente 43,5 segundos. Foram já anunciadas mais quatro datas mas comprar bilhetes também já é uma tarefa quase impossível."

"Eles bem disseram na conferência de imprensa da semana passada que iam ficar ricos com este regresso. Eric Idle brincou com a situação e disse que voltariam aos palcos para “tentar pagar a hipoteca de Terry Jones”. Pois bem, como era de esperar, o espectáculo, marcado para o dia 1 de Julho de 2014, esgotou em segundos e pelo mesmo caminho foram as novas datas anunciadas: 2, 3, 4 e 5 de Julho. Depois disto, não será difícil pagar a hipoteca e ainda ganhar algum dinheiro. Eles bem disseram e nós bem sabíamos."

Acordar no deserto.


O chão fedia, o ar fedia, tudo estava extraordinariamente perto do insuportável. Até o Sol parecia estar tão perto que quase me chamuscava as pestanas dos olhos que começava a abrir. Ouvia-os ao longe, sabia que estavam uns metros à frente, mas não os via. O calor fazia a paisagem tremer, distorcendo dois vultos misturados com os animais que impregnavam o ar quente.

O primeiro sinal de que eram mesmo eles foi a voz de Maria. Ouvi aquela rouquidão suave de radialista muito ao de leve, secundada por um cuspir de palavras de José. Nenhuma semelhança se podia encontrar entre o cuidado de dicção de Maria, expressa na sua voz granulada do pó de todos os dias, e o grunhir do marido. Ele não falava, certamente, melhor do que muitos dos seus animais, tendo apenas a sorte de se exprimir – e mal – numa língua perceptível aos humanos, mas ela parecia entendê-lo sem problemas.

Era capaz de jurar que a via ali, com um vestido tão leve como o do seu casamento, provavelmente bege. Lembrava-se como se tivesse sido no dia anterior. Talvez fosse até momentaneamente branco, mas o pó tratar-se-ia de o enfeitar mais ao jeito do deserto. Não tinha mangas, nunca tinha mangas. Os seus airosos braços estariam bem mais à mostra do que as suas ainda mais airosas pernas. Cheirava a uma flor qualquer que não sabia identificar, mas que pouco mascarava o cheiro descarado do suor dele, que lhe ensopava a camisa velha aos quadrados. José seria certamente alérgico a qualquer outro tipo de camisas e padrões, visto não haver memória dele a usar algo de muito diferente.

O pó assentou um pouco e quase que lhe vi o batom, vermelho, que sempre pensei que ela usava. No casamento estava igual, naturalmente. Talvez a cor fosse natural, mas nunca a olhei dessa maneira. O batom era essencial em todas as minhas fantasias, todas elas terminavam com um dos cantos dos meus lábios pintados de vermelho. Não sonhava muito alto, bastava um beijo de raspão, um cumprimentar de esguelha. Nem queria grandes momentos de amor, só este pequeno toque. Mas nem isso tinha. Era mais provável esse contorno de lábios estar desenhado algures no bigode de José, pintando-lhe os restos da sandes de queijo e pó que come religiosamente ao almoço e o palito que sempre mastiga à sobremesa.

Foi no casamento deles que me apaixonei por ela, foi no casamento deles que fantasiei com ela, entre brindes de tequila e vivas aos noivos. À medida que eles me subiam à cabeça, traziam a raiva escondida e afogada bem no fundo de algum órgão. Olhava-lhe o fato barato e ria-me sozinho. Via-lhe as botas, tão impróprias ali como gelados no Alasca, e ria-me mais alto e mais sozinho. Cheirava-lhe o fedor que emanava a cada passagem do número de dança que tão pouco entusiasmado fazia e ria-me ainda mais, depois de um primeiro momento em que fazia por revelar algo como uma expressão de nojo puro. E a tequila ia desaparecendo dos meus copos ao mesmo ritmo a que as pessoas iam fugindo da minha mesa. Reparava-lhe por fim na mulher, e chorava. Não chorei muito, antes de adormecer com toda a gente a olhar-me de cada vez mais longe.

Sentia-me agora perdido e a desfalecer. Queria água, queria que tapassem o Sol com uma pala gigante, só por uns minutos, até me recompor. Tinha os sapatos quase brancos. Cuspi-lhes as últimas pingas de saliva e esfreguei-os nas pernas opostas. Pintei-os de preto. Também sentia o pescoço apertado, pela gravata que reparava estar a usar. E foi no dia a seguir ao casamento que me desapaixonei por ela, entre vómitos secos e promessas de sobriedade eterna.


Pode ser Pepsi?

Estamos de parabéns porque vamos ao Mundial 2014 no Brasil (Costas, há casa para mim em Junho?). O Fernando e o André Costa já escreveram aqui, e bem, sobre aquela granda jogaça de 3ª feira, em que o maior enfiou 3 papos-secos dentro da baliza sueca, como só ele sabe fazer.

Mas não é sobre isso que eu estou a escrever hoje. É sobre um outro assunto. Um assunto que marcou esta semana e que está indiretamente relacionado com o jogo: A Pepsi Sueca (e isto é importante realçar porque a malta tem sempre ideia em confundir as coisas.. não é a Pepsi Portugal nem a Pepsi Internacional - que curiosamente tem Messi como um dos seus rostos publicitários) publicou 3 imagens na pag do facebook em que mostra um boneco vestido com as cores nacionais amarrado numa linha de comboio, outra repleto de alfinetes vodu e outra esmagado por uma lata Pepsi.


A Pepsi Portugal, através da sua pag facebook, pediu desculpas ao Ronaldo e aos Portugueses. Mas não foi suficiente pois logo a seguir à publicação das fotos apareceu logo uma página de indignados a boicotar a Pepsi: Nunca mais vou beber Pepsi, que já tem quase 200 mil likes, com o seguinte mote: «Se és português e tens orgulho no teu País, nunca mais bebas Pepsi e faz "Gosto" nesta página!». O assunto tornou-se viral e não tardou a aparecerem 1) montagens, feitas no paint, a associarem CR, Messi, Pepsi, Coca-cola, Blater, Zlatan, etc. 2) vídeos no youtube de tugas a partirem arcas da Pepsi ou de telefonemas em tom de brincadeira para a Pepsi Internacional, 3) noticias sobre troca de fornecedores, como no caso da TAP que respondeu via facebook a uma cliente.

Não tardou também a aparecerem os peritos a comentar. "A imagem da marca fica gravemente afetada. O pedido de desculpas dado nas redes sociais, sendo correta, é tarde de mais." dizia Luís Pereira Santos, da McCANN Portugal. "Basta olhar para os 63 milhões de fans que o Cristiano Ronaldo tem no Facebook e os 23 milhões da Pepsi para fazer as contas de quem terá ficado a perder e, claro, perceber que o problema da marca não será apenas em Portugal" dizia Tomás Froes, da MSTF Partners.

Surge então a altura de comentar o sucedido:
Em 1º lugar sobre o conteúdo: ao contrário do Henrique Raposo, não vi nenhuma "campanha inteligente".. vi sim uma demonstração de muito mau-gosto.
Em 2º lugar sobre o movimento anti-pepsi: concordo com a "indignação patrioteira e patética", com o "vejam lá se arranjam uma vida, vejam lá se ganham estofo e capacidade de encaixe, no fundo, vejam lá se crescem" e com o "este é apenas o último episódio de um fenómeno cada vez mais grave: a intolerância crescente das redes sociais". Mas o tuga é assim: Fala-se muito do patriotismo e do orgulho português, mas no final de contas, temos uma memória tão curta quanto a nossa capacidade política. Por aqui, as feridas fecham-se rápido, muito rápido até. E quando se trata de um movimento que nasce no facebook, mais ainda: nasce uma veia revolucionária dentro de cada um alimentando o sonho de querer mudar alguma coisa.
Em último, sobre as consequências para a marca: Em Portugal, é a Coca-Cola que domina o mercado e a Pepsi nunca vai conseguir inverter a sua posição de follower. Quando o Tuga for a um café, vai continuar a pedir Coca-cola, o empregado a perguntar-lhe Pode ser Pepsi?, o Tuga durante uns tempos vai dizer que não, mas como a memória é curta não vai tardar a dizer que sim.

Concluindo numa frase: Esta campanha foi uma palermice que correu mal mas os portugueses esquecem rápido.

sábado, 23 de novembro de 2013

Porque todos os homens deviam ser JFKennedy

Ok, pronto, é radical eu sei, deixemos liberdades a alguns para serem quem são…
Foi há um dia que se celebrou o aniversário da morte deste senhor. Aposto que quando se celebrar o aniversário propriamente dito ninguém se lembra, mas há que seguir a tradição mórbido trágica dos media porque afinal um aniversário em si não tem graça nenhuma!, mas aqueles polvilhados de sangue a gente gosta!
JFK carrega aos ombros aquilo que a partir da sua era, mais do que o sonho americano, passou a ser um “perfect portrait” de família. E é irónico como, no fim, nada houve de perfeito.

O carisma de JFK levou-o a ser mais do que um presidente, foi o símbolo de presidência americana. A máquina de corrupção estava por trás mas isso, ninguém via.
O alento da nação vem de uma bela primeira-dama e de um bom par de Ray-ban numas férias à beira mar. Obama não lhe chegará nunca aos calcalhares, será sempre um substituto, como se depois de uma grande festa regada de champanhe e Bourbon os americanos se tivessem que contentar com uma after-party nos fundos. Bem, menos talvez, mas a escolha será sempre óbvia.
JFK é o retrato da nação perfeita, da família perfeita, do homem que deu a cara pela América e que a carimbou com ela. Incontornável.

Quem discordar pode ir pregar para a casa dos Onassis.

O facto interessante é que a política renasceu aqui como um jogo de imagem. O povo ama aquilo que vê, não a política. Entre os vestidos, as belas casas de campo, os tuxedo e os flutes ninguém se importa, é a vida americana no sei auge e, afinal, é disso que vive a América, de um poder tão económico quanto de imagem. Vejam-me, adorem-me.
Ah, e depois claro temos a célebre “forgive your enemies but never forget their names.” Acho que a américa também continua a gostar bastante desta…

Para o homem que ainda não percebeu que deve ser JFK tente ter uma mulher como a Jackie, levar os USA por um cordel e chegar a casa com a Marylin a cantar happy birthday mr president  ao ouvido. 


Parte nº2 ou como ser um bêbedo sem classe na Suécia:
Ah! Os povos nórdicos! Uma capacidade de organização e educação excepcional mas uma capacidade de beber um só copo irrisória!
A sensação de entrar num supermercado sueco exclusivamente destinado à venda de álcool assemelha-se um pouco a ir a uma consulta de psiquiatria: vai tudo ao mesmo mas é melhor evitar a troca de olhares não vá fulano reconhecer-me no dia seguinte. Mas ali é quase impossível porque os sacos plásticos para levar o álcool são de “cor especial”, quer isto dizer de um azul que é impossível ignorar na rua. 
Quando alguém passa com um saco daqueles já sabem, hoje à festa!
Mas o escândalo está no facto de este tipo de supermercado fechar sábado a partir das 15h e domingo o dia todo. O governo parece desesperado em controlar um povo que pura e simplesmente não sabe beber por convívio, ou é para acordar as sete da manha meio nu em casa de desconhecidos barrado de manteiga de amendoim ou então não vale a pena!

E em verdade não há maneira de resolver o problema do supermercado fechado. Porque para os nossos amigos suecos não há o “compra e fica de reserva”, se há de reserva mais vale é beber!


E agora por falar nisso, deixa-me lá ver se tenho aqui algum…