sábado, 7 de dezembro de 2013

Sobre a psicologia do "vim até aqui aguento a bronca até ao fim!"

O que conto aqui é a história real do quão ridícula e patética a influência dos media se pode tornar. Aqui vai:
Não sei se estão todos informados do fenómeno Tour 13, um velho prédio em Paris que antes de ser demolido foi transformado em obra de arte, ou como quem diz, grande tela para graffiti. Artistas internacionais convidados para subir o gabarito da coisa, e um tempo limitado de abertura ao publico que culminaria com a demolição da mesma. Arte efémera portanto, e quem a queria ver corria, verdadeiramente, contra o tempo.

Confesso que tentei ir lá, uma vez, mas depois de uma hora de espera na fila e a adivinhar outro bom par delas desisti. Mas tenho amigos mais corajosos!
Heron convida-me para ir a Tour 13 numa terça de manhã. “não vai estar ninguém, dia de semana, está tudo a trabalhar! E estamos lá às nove e meia e pela hora de almoço já estamos livres!”.

Nove e meia da manha estava ele na fila da Tour 13, as dez junta-se o resto do grupo.
E a espera começa:

11h

12h

13h

14h

Quatro horas na fila. “bem, agora já não consigo ir as aulas e não, e depois de quatro horas não pode faltar muito mais. Ficamos!”

15h

16h

Ninguém tem fome?

17h

18h

19h

Agora a coisa está difícil… Mas quem aguenta até aqui aguenta mais um pouco!

20h

21h

22h

23h

Aleluia meu Senhor!

E finalmente entraram. A torre estava lotadíssima, não se via uma parede inteira, completamente tapadas por uma multidão amontoada. O calor era insuportável, casa de banho não havia, o cansaço esgotante. Subiram os nove andares e saíram em dez minutos, e o que viram foi nada.
Foram no dia a seguir ao site ver as imagens porque metade delas ninguém se lembrava!

Agora a Tour 13 está lá, solitária, fechada e pronta a ser demolida um dia destes.
Uma média de 7 horas de espera para uma torre grafitada cuja demolição podia ser muito bem adiada.

Até que ponto as pessoas se deixam estupidificar?



ps. e para quem quiser matar a curiosidade aqui fica o link
http://www.bfmtv.com/diaporama/tour-paris-13-lexpo-ephemere-a-taille-dimmeuble-236/image-13/

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

(Desa)bafo do preço da chuva...

Está quente e custa a respirar... O verão começa-se a aproximar e o calor aperta. Como se não bastasse, tens passado os últimos dias a escarafunchar o nariz no rolo de papel da cozinha e tens gasto pequenas fortunas em lenços de papel. Fizeste “shotgun” aos guardanapos lá de casa e eles dormem ao teu lado na cama. Mais ninguém pode usar, são teus. Só não valem folhas A4 ainda porque arranham p’ra caraças e as ideias têm que ficar eternizadas nesse papel. Estás outra vez com aquela tua sinusite impossível, que te deixa o nariz assado de tanto te assuares, a vista a chorar e te dá um mal estar do caraças, sem paciência para nada... Ah, e está um calor impossível.

Acordaste cedo, ainda meio lerdo, porque aqueles teus anti-histamínicos deixam-te totalmente grogue durante os primeiros instantes do dia. Banho, fato, cereais, a rotina de sempre. Fizeste o percurso habitual até ao escritório, mas hoje já não deu para usares as duas alças da mochila do portátil ás costas... A recompensa de a levar no braço foi uma camisa suada e não totalmente encharcada. O dia passou-se e foi mais um daqueles dias no escritório. Nada de novo.
Sais cansado e agastado depois de mais uma jornada de trabalho, depois de mais uma reunião onde descobres que amanhã vai ser pior que hoje, mas pensas que é sexta-feira e não vai ser assim tão mau (mas vai). Quando ainda vais a pensar no amanhã, deparas-te com o dilúvio de hoje. A chuva cai interrompida e violentamente... Pensas: “Porra, esqueci-me outra vez da porcaria do chapéu. A ver se isto passa...”. Passar passa, porque passa sempre, mas isto é São Paulo e vai inundar rápido... Corres até à estação de comboio, estrategicamente colocada junto ao escritório. Vais no sentido do fluxo dos milhões da cidade e já não é só a chuva que sente que sentes colada ao corpo... A humidade daquele trem equiparava-se a Manaus e a densidade era típica de Sampa.

Sais na tua estação, decidido em comprar mais um chapéu para te esqueceres também desse em casa da próxima vez. Pões a mão ao bolso e tens 10 reais: “Opá boa, deve dar!”. Mas não... No Brasil dão-se aulas de Pricing a cada esquina: “Ah, está a chover. Ah, há mais procura! E o chapéu passou a 20 reais!”. Estás sem dinheiro trocado e o caixa multibanco era só lá no cara... Tentas negociar, mas não dá, hoje enquanto chover custa 20, quando parar volta a 10... Vais ao próximo vendedor, mas o cartel estava montado, e pensas: “Foda-se, vou a pé! É já ali...” Mas o já ali, são 2 km... É o preço de morar perto em Sampa.

Pões o pé fora da estação e o caos estava a dar um concerto. O barulho das buzinas era ensurdecedor, o trânsito estava para lá do caótico habitual, as ruas inundadas e a múvuca munida dos seus chapéus estava a fazer-me pontaria ou então estavam demasiado ocupados em tentar chegar a casa rápido... E a chuva caía agora ainda mais violentamente, mais quente, e tu no meio disto tudo, doente, ensopado dos pés à cabeça e com a água a escorrer-te pela ponta das mãos...  Desistes! A chuva a bater-te na cara até te parecia bem, pena estares doente... Os 2km foram feitos com o pensamento no banho quente e na refeição tranquila com os amigos lá de casa... Mas não, esta era a semana das quedas: primeiro uma ala do estádio do Itaquerão (sede inaugural da Copa, pelo menos, acho que o plano se mantém), depois o prédio de 5 andares em construção que ruiu (?!), e finalmente, a árvore da rua ao lado de casa, que se desiquilibrou para cima de 2 carros e resolveu levar a eletricidade do Bairro toda atrás...


Chegas a casa a pingar, sobes a pé porque o elevador não mexe, os sapatos ficam à porta, trocas de roupa e tens que ir jantar fora, porque não consegues cozinhar porque não vês um palmo à frente dos olhos... E aí pensas: “Foda-se, amanhã levo o chapéu, ou pago o preço da chuva”.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Uma série de respostas

Resposta para o Costa

Ela: Senhor, não existe nenhum bilhete emitido em seu nome.
Ele: Desculpe?
Ela: Não temos registado em nosso sistema nenhum bilhete emitido em seu nome.
Ele: Isso é impossível Senhora. Eu comprei o bilhete há três dias atrás, estou certo disso.
Ela: Vou confirmar novamente. Pois, é como lhe disse, não temos nenhum registo em seu nome.
Ele: Não estou a perceber… que dia é hoje?
Ela: Cinco de Dezembro de mil novecentos e trinta.
Ele: Sexta-feira?
Ela: Exactamente Senhor, sexta-feira.
Ele: Pois, exactamente. Só para confirmar Senhora, estamos em Lisboa não estamos?
Ela: Desculpe?
Ele: Gostaria apenas de confirmar onde estamos pois por vezes eu ando meio distraído… este é Aeroporto de Lisboa não é?
Ela: Sim Senhor… é o aeroporto de Lisboa.

(Ela começa a achar que Ele é estranho)

Ele: Então eu tenho a certeza que estou certo! Por favor, confirme novamente Senhora. Ainda nada? Não estou mesmo a perceber o que possa ter acontecido.
Ela: Nem eu…

(Ele olha para o telhado do aeroporto)

Ele: Diga-me uma coisa por favor. Que nome está a verificar em seu sistema?
Ela: Como assim? O seu nome!
Ele: Claro, mas qual?
Ela: O nome que está escrito em seu Passaporte. Senhor Fernando Pessoa.
Ela: Xiiii… merda. Ora tente lá por favor Ricardo Reis ou Alberto Caeiro ou… como se chama o outro mesmo? Não se assuste Senhora, somos todos a mesma pessoa.

(Claro que isto é tudo mentira. Em 1930 ainda não existia o Aeroporto de Lisboa. Nem o ‘sistema’. Mas se existissem, Ele certamente teria que pagar uma taxa para alterar o nome).

Resposta para o Luís

Também já pensei porque é que as pessoas escrevem em Blogs. Porém, como mostraste, a multiplicidade de hipóteses torna a análise um tanto vaga de conclusões. No caso destes Mentirosos todos, de quem posso falar com um pouco mais de propriedade, acho que é só mesmo para alimentar o Ego. Embora não tenha sido o primeiro a pensar isso.

Resposta para o Marques

Na verdade também não é resposta nenhuma, mas sim um conjunto de pensamentos consequentes de tua última Mentira.

Achei graça à tua intitulação de liberal (e não ultraliberal) assim com a boca cheia. Não pelo que isso representa em termos da minha compreensão da tua pessoa, mas pelo facto de eu não conseguir categorizar a minha posição política numa palavra. Ou em poucas, vá. Sinto que possuo um conjunto de opiniões e posições face à realidade política, económica e social que podem aproximar-se mais ou menos de uma percepção bastante incompleta que tenho de um número de correntes ideológicas formais. Não estou a falar de bandeiras partidárias. Acredito também que são mutáveis as posições individuais em função de novas experiências que nos confrontam com realidades diferentes de forma constante. No fundo, parece que quanto mais conheço mais difícil fica etiquetar uma dada predisposição de pensamento. Ainda assim mostra-se cada vez mais lógico que a forma mais lógica de ideologia política estará necessariamente entre o neoliberalismo e a social-democracia, com todo o risco que os meios-termos implicam. Mas prefiro o risco do meio-termo ao risco do radicalismo. Uma resolução de ano-novo que já migra na prateleira faz anos é precisamente estudar, de forma estruturada e académica, a história das ideias políticas. Até lá, vou lendo pontas soltas que vão ajudando a ganhar vontade de atacar o todo.

E li esta semana uma ponta solta que me despertou interesse (sim, tudo isto foi para chegar aqui). Chama-se a Terceira Via (ou The Third Way) e é “uma corrente da ideologia social-democrata, (…) promovida por alguns partidários do liberalismo social. Tenta reconciliar a direita e a esquerda, através de uma política económica ortodoxa e de uma política social progressista (…) parece ser uma corrente que apresenta uma conciliação entre capitalismo de livre mercado e socialismo democrático” (direitinho da Wiki). Vocês que são muito mais educados do que eu, já devem saber a história deste movimento que falhou redondo precisamente por estar no meio-termo. Morreu nas mãos dos Clintons e Blairs desta vida. Vale leu um pouco de Anthony Giddens para conhecer melhor. Acho que isto ainda vai dar que falar no futuro.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

pinheiros de Natal

Na escola primária multiplicam-se composições com o tema 'o que é o Natal?'. Eu cá gosto do Natal. O que não interessa para nada, convenhamos, a pergunta quer apenas saber o que é o Natal e não o que eu acho acerca do Natal. Assumo com humildade que não sei nada do que vai nas cabeças das outras pessoas. Objectivamente, o Natal é a soma daquilo que todas as pessoas pensam acerca do Natal. Por isso a resposta à pergunta o que é o Natal é fácil: não sei. Talvez a professora tenha incorrido no erro comum de deixar incompleta uma pergunta que se julga subentendida: em composições vindouras, faça por adequar o enunciado à exequibilidade.

Para mim, Europeu confesso, o Natal é frio, neve, pinheiros, lojas enfeitadas, iluminação, nascimento de Jesus. A um carioca, tirem o frio e a neve. A um etíope, tirem as lojas enfeitadas, a iluminação. A um indígena pagão tirem o nascimento de Jesus e ponham o solstício de Inverno. No meio disto, fica a teimosia do pinheiro. De formas várias, há pinheiros em todos os continentes, a árvore é uma praga. Professora, afinal sei a resposta: o Natal são pinheiros (o Natal pode ser quando um homem quiser somente pela evidência dos pinheiros serem árvores de folha persistente).

No país do pequeno Carlitos, criança reguila, aconteceu pois um episódio curioso. Por volta de Fevereiro, os pinheiros começaram a murchar. Secaram e caíram sem causa aparente. O pânico instalou-se, não por causa dos perigos que a falta de pinheiros podem causar num ecossistema biológico, mas porque nesse país deixaria de haver Natal. O conselho de ministros reuniu-se em torno do ministro líder. Dias de negociação levaram à arquitectura de um plano. Os pinheiros naturais tinham que ser obrigatoriamente substituídos. Um apelo foi feito à nação, só um aumento de impostos extraordinário poderia tornar exequível o resgate do Natal. Foi referendada a pergunta, 'Deseja salvar o Natal?'. O sim ganhou.

Todo o plástico que o país conseguia produzir ou importar foi canalizado para a criação de pinheiros artificiais. Criteriosamente, foram colocados onde antes se erguiam, perdoem-me o abuso de linguagem, pinheiros de carne e osso. Por volta de Novembro, já ninguém se lembrava do que era resina, pinhas a cair ou o chilrear de pássaros em ninhos. O Natal estava salvo, mesmo que agora não houvesse, naquele país, plástico ou dinheiro disponível para as estrelas, bolas, e outros enfeites coloridos.

Por volta de Janeiro, sentado no baloiço do parque da cidade, o pequeno Carlitos, criança reguila, mastigava pastilha elástica enquanto brincava com o indicador dentro do próprio nariz. Viu homens com químicos a aleijar os pinheiros. Não compreendeu porque é que o faziam, sendo as árvores tão bonitas e saudáveis. Meses mais tarde, quando os exemplares a fingir foram plantados, o Carlitos achou prontamente que as pessoas que viu naquele dia eram keynesianos vestidos de fato-de-macaco. Mas eram somente os funcionários da empresa de plástico daquele país, alguns dos quais até ministros.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Porquê escrever em blogues?

Há algum tempo tive esta dúvida, dei por mim a pensar nisto. Claro que entretanto adormeci, ou arranjei algo melhor para fazer. Talvez pura e simplesmente tenha ouvido cair um lápis no andar de cima ou uma buzina na rua, que é o que basta para me fazer alhear das ideias que tenho (felizmente, elas vêm em grande número e com uma periodicidade constante).

Vamos por partes. Em primeiro lugar, porquê escrever? Esta é uma pergunta que surge em quase todas as entrevistas a escritores. Gostando eu de ler entrevistas e interessando-me por literatura, já vi um número ridículo de respostas diferentes. Não é em cada cabeça, sua sentença, mas quase. Para uns é uma necessidade quase fisiológica, para outros um trabalho, para uns a vontade de viver outras vidas, para outros uma forma de expurgar os males que os assolam. Na verdade, não me revejo em qualquer uma destas opções. Mas também não sou um escritor, pode ser disso.

Depois, porque escrever um blogue? Bom, imagino que as hipóteses acima referidas se podem manter, mas há algumas novidades: uns escrevem em blogues com esperanças que isso lhes impulsione a carreira (é giro vê-los a comentar nos blogues mais lidos), outros porque acham que têm algo a dizer, outros porque acham que têm a obrigação de o fazer, para não defraudar os seus leitores.

Acabo de perceber que não me revejo propriamente em nenhuma destas hipóteses. Sei porque escrevi este texto - quando pensei no assunto não cheguei a nenhuma conclusão, e às vezes pensar por escrito torna tudo mais claro - mas isso não me leva a lado nenhum (como este texto não levou a nenhuma conclusão). Ao fim ao cabo, acho que escrevo porque me apetece. Pode ser?

Da série: “Só o excesso de tolerância alimenta a ditadura das minorias!” (II)

Eu queria ter escrito sobre este assunto a semana passada, mas como o meu facebook estava inundado de indignados anti-pepsi, resolvi traze-lo para esta semana.

Ao que parece, no mês passado os Suíços recusaram limitar salários 'milionários' com mais de 65% a ir às urnas votar contra a imposição legal de limites aos salários mais altos, ou seja, quase 2/3 disseram "não" à proposta de referendo que pretendia limitar os salários mais altos de uma empresa a serem no máximo 12 vezes superiores aos salários mais baixos da mesma instituição.


A ideia por detrás desta proporção é que numa empresa ninguém ganhe mais num mês do que outros ganham num ano inteiro. Ao contrário do que o Fernando estaria à espera, os suíços não aprovaram por uma simples razão: perda de competitividade e prosperidade da economia suíça e a atratividade do país.

Aqui em Portugal, a JS quer importar o "Gato Gordo" da Suiça. A proposta dos jovens socialistas tem por base, não só o exemplo suíço, mas também o exemplo francês que já define que um gestor de uma empresa pública só pode ganhar 20 vezes mais do que o trabalhador mais mal pago.

O 1º pensamento a que me vem à cabeça quando penso nisto é que uma coisas destas seria aprovada em Portugal. Em certas partes do mundo, como nos EUA, na Suiça ou em Portugal, há CEOs que ganham 200 vezes o salário do funcionario mais baixo. Eu não tenho os nºs de Portugal, mas tenho este TOP da Suiça:


Eu, como liberal que sou (e aqui não confundir com ultra-liberal), não acho que 1:12 seja uma proporção razoável mas acho que estabelecer-se legalmente um teto para os salários milionários é algo que faz sentido. Isto porque uma proporção de 1:200 é uma imoralidade e uma obscenidade.

É uma medida que pela Europa fora está a ser discutida e eu acho que merece ser discutida. Mas de uma coisa é certa: eu simpatizo imenso com países onde uma medida populista é chumbada em massa.

sábado, 30 de novembro de 2013

O exercício de sempre...

O branco pálido dos rostos da plateia dava o mote ao acontecimento: o Inverno tinha chegado.  O pretexto para escarafunchar os roupeiros à procura da roupa mais quente também. Tinha chegado o frio cortante, cortante porque é seco, mas também porque só quando é seco é que corta realmente, e custa mais a aturar. Acho que é assim, no geral, não é só com o frio...

O café era o de sempre, naquele dia da semana de sempre, com as pessoas de sempre, mas já um pouco para lá da hora de sempre. Invariavelmente, havia sempre alguém mais atrasado, e não deu para começar às horas de sempre. Mas lá se começou, porque há sempre um começo, embora não se saiba sempre qual é que vai ser...

A Mariana estava fora no outro frio que faz lá em Londres. Os Tiagos orquestravam outro daqueles planos megalómanos para viverem a melhor aventura de sempre. A faculdade deles podia esperar, porque há sempre tempo... A Joana e o Ricardo conversavam prazerosamente, como sempre. Discutiam o café de sempre e reflectiam sobre os acontecimentos da semana, como sempre. A Joana queria ficar dedicada às suas causas, mudando o mundo daqueles que com ela se cruzam todos os dias, dando voz aos seus sonhos, mas também uma melhor voz àqueles que com ela sonham. Ricardo matutava no futuro, e depois no passado, e depois intercalava um com o outro, e ás vezes lá dava umas voltas no presente, como sempre. A conversa estava animada, aquecida pelo café escaldado na chávena, mas também por aquele aconchego que dá uma mesa cheia dos amigos de sempre.

Mas decidiu-se exercitar o sempre...

- Joana: Ás vezes penso que estou mesmo a ficar velha. Continuamos a vir aqui e os anos passam, e eu sinto-os realmente a passar. As coisas acontecem tão rapidamente, que parece que foi ontem que nos conhecemos todos...

- Ricardo: Eh, eu nem sequer me lembro o que jantei ontem...

- Joana: E daquelas férias na Zambujeira, lembras-te?

- Ricardo: Férias?
- Joana: Parece que foi ontem... Depois fomos para o Crato para casa da Mariana e estava aquele bafo insuportável... Estava lá o pessoal todo. Foi brutal...

- Ricardo: Pois...

- Joana: Nem parece que já estamos no Inverno outra vez... Agora, o que sabe mesmo bem, chegar a casa e comer aquela sopa da minha mãe... Ah, é verdade. Falei com a Mariana há duas semanas, ela perguntou se já sabes como vai ser a tua vida daqui para a frente?! Já nem me lembrava de te perguntar, parece que foi ontem que falámos sobre isso...

- Ricardo: Pois ainda não sei... Está tudo indefinido, mas é altura de começar a pensar em decisões.

- Joana: Lá estás tu e os teus mistérios. Bom, olha lá, e a Belinda? Tens sabido alguma coisa dela ultimamente? Parece que foi ontem que foi para a Austrália, ela é que está como quer... E nós aqui...

- Ricardo: Não sei, parece que passou tão pouco desde que ela foi... Tenho saudades dela, mas eu acho que ela fica bem com o Alex.

- Joana: O quê? Estás parvo? Já passaram 2 anos... O tempo tem passado a correr. Parece que foi ontem que saí da faculdade...

- Ricardo: A correr? Olha, os meus estão a fazer uma corrida contra o devagar, e estão a ganhar...

- Joana: Só podes estar a gozar? Já te disse, parece que foi ontem que entrei na faculdade, e olha agora para mim, que já estou a terminar a tese e a estagiar...

- Ricardo: Pois, eu não acho isso... Eu olho para trás, e vejo mudança.

- Joana: Pois...

- Ricardo: E olho para a frente e também... Essa é a graça disto tudo... Mudou tudo e o que eu dava como garantido para sempre, hoje dá-me vontade de rir... Não sei, talvez crescer seja isto...

- Joana: Pois não sei, lá estás tu com as tuas coisas...

- Ricardo: Bom, deixa lá... Que se lixe, ao menos ainda continuamos a ter o nosso cafezito às quartas...

E a conversa voltou ao de sempre... Mas o de sempre é que não voltou à conversa, nem a eles. Pelo menos por agora...


E os teus últimos 5 anos? Secos?