Quando na janela de São Paulo vi esta chuva tropical bíblica, pensei logo nos coitados dos mosquitos. Imagina se fosses um mosquito no meio de uma tempestade tropical. Ou pior, um mosquito sem abrigo numa tempestade tropical. Ou pior ainda, um mosquito com excesso de peso e sem abrigo numa tempestade tropical. Que merda hã?
Mas calma. Não fiques triste nem preocupado/a. Eu fui pesquisar a vasta literatura sobre o assunto, e descobri o seguinte: "O estudo mostra que só há risco de morte quando os mosquitos voam muito perto do chão durante a chuva. A gota que atinge o inseto pode carregá-lo por uma distância de até vinte vezes o seu tamanho e, ao voar próximo ao chão, o animal pode não ter tempo de se separar da gota e colidir com o solo ou se afogar em uma poça de água".
E aí fiquei mais descansado. Acho que se eu fosse um mosquito não seria daqueles covardes que chupam tornozelos. Adoro pescoços. E vôos altos.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Aqui jazz (I)
Uma série sobre
música. Sobre músicos, melhor. Aqui jazz, em primeiro lugar, porque é aqui. E não que aqui só possam
jazer notas de jazz, mas notas de jazz marcam o padrão do que merece estar
jazido aqui. Em terceiro, porque já jazem a maior parte dos que me jazzem.
(Por último, porque
é o melhor bar da Guarda).
Vamos inaugurar
com Eugênio Avelino (nem jaz nem jazz). Mais conhecido por Xangai, que era o
nome da gelataria do pai dele em sua cidade natal, em Vitória da Conquista,
interior da Bahia, Brasil. No sertão. Parece que todos os discos dele moram na
estante lá de casa. Como desconfio sempre de capas a preto e branco, nunca
ouvi. Mas devia ter ouvido.
Como quase sempre
acho chatas as críticas de musicólogos (muitas palavras), vou tentar deixar
apenas a essência. Sim, esta até poderia ser uma série de essências, de dar uma
picada para ver se faz reacção. Três músicas, três picadas. Vamos lá.
A primeira coisa
que me impressiona em Xangai é a sua aparente imortalidade. Parece que os
últimos 20 anos contornaram a sua cara, voz e energia. Um concerto dele é uma
experiência brilhante.
E embora Xangai seja
mais intérprete do que compositor, parece trazer nas letras da sua voz uma herança
de tal forma autêntica que lhe confere uma propriedade histórica arrepiante.
E claro que
também escolhe aquela poesia bela e inocente (que imagino cantada com um
sorriso no canto da boca) que canta o encanto daquela mulher.
"Um passo formoso é a moça
Uma árvore frondosa
É o seu dorso"
Uma árvore frondosa
É o seu dorso"
Confesso que começar
com música regional brasileira é um movimento egoísta. É também uma picada para
ver se outros Mentirosos me brindam com seus jazigos. Seria uma delícia. Na
falta de tema ficcional ou construção sobre a realidade, vou-vos apresentando
notas que talvez gostem um dia. Ou não.
Até jazz
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Anita e as dúvidas
Despreocupadas e sentadas num banco de
jardim, as duas amigas conversavam com tempo. O diálogo perdia-se em
profundidade. Era coisa que de alguns meses a esta parte lhes causava
desconforto: notar que nas suas vidas os temas verdadeiramente
interessantes só lhes ocupam o pensar nas alturas despreocupadas. Às
tantas ter os pés bem assentes na terra faz esquecer o lugar da
cabeça.
- mas afinal o que é que nos move? -
perguntava Anita. Os carros, as pernas, as bicicletas e os aviões,
as leis da física, literal e obviamente. Mas o mover que acontece
antes do mexer. O que nos move? O que nos move para acordar de manhã
e não desejar viver dentro de uma incubadora capaz de somente nos
deixar existir? Move-nos o trabalho? E o que nos move para trabalhar?
Trabalhamos para nos podermos mover? Movem-nos os sentidos que não
mais são do que mecanismos de sobrevivência?
- é a dúvida Anita. A dúvida
move-nos a cada dia. Não sabes nada, não te conheces a ti própria.
Tens uma consciência sem idade, nem sabes se mais velha ou nova do
que tu. Não há certezas escritas sobre o amanhã e sobre o ontem
nem podes distinguir o credível do verdadeiro. É a dúvida que te
move. Não sabes quem és.
- Talvez. Mas às vezes acho que isso é
um incómodo. Tanta dúvida. Queria que existisse uma
espécie de bar. Único no país, por isso chamado Singular. A festa
de inauguração seria anunciada nas redes sociais, e eu haveria de me
aprontar horas antes da hora de abertura divulgada. Ali, à espera,
no inicio da fila. Abrem as portas e o interior vazio enche-me de
certeza. Penso 'quem sou eu?' e grito 'eu sou a primeira pessoa do
Singular.' Sei a resposta mais importante e estou certa, vês?
Depois disso vou continuar a mover-me?
- Claro, já que estás num bar ouve
música e aproveita para dançar.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Sobre a mentira.
Não é pelo nome do blogue que este texto é sobre a mentira.
Podia ser, mas não é. É por causa de um filme dinamarquês (sim, todo falado na
língua que eles por lá falam), cujo nome em inglês é “The Hunt”.
O filme trata da vida de um homem (Mads Mikkelsen, mais
conhecido por ser o Hannibal da série, é o actor principal) numa pacata
terrinha algures na Dinamarca, e cuja vida se altera radicalmente por causa de
uma mentira. Mais concretamente, por causa de uma mentira de uma criança, em
que todos acreditam porque, e cito o filme, “as crianças não mentem”.
Este é o primeiro ponto que me faz escrever sobre isto. Na
minha cabeça, as crianças são pequenos seres mentirosos, que mentem sobre quem
comeu as bolachas ou riscou as paredes ou partiu o vaso. Mas pensando melhor,
talvez o filme tenha razão. As crianças não têm tantas motivações para mentir
como um adulto, por não serem tão capazes de perceber as possíveis consequências
nefastas de uma verdade. Também não terão capacidade para o fazer. Capacidade
ao nível intelectual, de criar uma situação hipotética, ou capacidade ao nível
físico, pois uma mentira tem implicações ao nível do sistema nervoso. As
crianças não mentem? Provavelmente sim, mas de uma maneira mais simples, menos
requintada, menos ponderada, e mais fugaz (à primeira ameaça de castigo, as
bolachas já não se comeram sozinhas). O filme pareceu-me forçado nesta
assunção, mas talvez tenha razão.
O segundo ponto é o de que uma mentira por vezes pode ter
mais peso que a verdade, como o filme parece querer demonstrar. Outra vez, não
me parece assim tão linear. Na minha cabeça, uma mentira e uma verdade têm a
mesma força, sendo essa, no fundo, a força da informação transmitida e da
credibilidade da pessoa que a transmitiu. Por isso é que em certos temas é mais
fácil acreditar numa só coisa, seja ela verdade ou mentira. O filme
revolta-nos, provavelmente, apenas por sabermos a verdade, porque se
estivéssemos lá naturalmente que não seria tão linear.
Quanto ao filme, em si, deve andar pelos Oscars para melhor
filme estrangeiro (pedir a nomeação para melhor actor é puxado, mas não
desmerecido: para quem viu Hannibal, ele aqui tem emoções, um monte delas). Um
filme sem um clímax, sem grandes momentos de antecipação, sem artifícios nem
manhas para fazer o espectador soltar umas lágrimas. Mas isso não quer dizer
que não atinja o objectivo: é possível que a revolta acumulada dentro de nós
nos transborde pelos olhos, em cenas tão banais como uma ida ao supermercado.
Mas é um choro de que nem damos conta, um choro silencioso e imperceptível de
revolta interior.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
1 de Janeiro
Qual será a sensação de acordar no primeiro dia do ano e pensar: fodasse, que dia é hoje?
A verdade é que quanto mais uma
pessoa celebra o fim de um ano pior será o primeiro dia do ano seguinte.
A
festa deveria ser no dia 1 de Janeiro.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
hunger games e imperialismo
A história gira em torno de uns jogos organizados numa cidade faustosa. Nesses jogos, 24 adolescentes têm de lutar até à morte para descobrir o vencedor anual. Os jogadores são forçosamente recrutados de 12 distritos paupérrimos, subjugados pelo governo totalitário da grande cidade próspera. Diz-se que o governo da cidade garante a paz, e que os jogos são uma forma de castigar os 12 distritos que no passado, revoltosos, semearam a guerra.
Para quem viu ou verá o dito filme, talvez não seja paranóico reparar nalguns pormenores interessantes. A cidade vive ricamente. Os seus habitantes são livres e saudáveis. O apego pela moda e a exuberância são visíveis. Os Patrocinadores, entidades dessa cidade, escolhem os seus jogadores preferidos, sendo esse um investimento completamente livre e pessoal. Sugere-se um sistema económico individualista e liberal. Uma espécie de vértice superior de uma pirâmide. Na base, os 12 distritos. Cada um deles produz uma determinada matéria prima. A presença militar da grande cidade, nesses distritos, é uma constante. Os jogadores são daqui brutalmente recrutados. Alguns participantes voluntariam-se, esses assumem que o seu grande objectivo é representarem da melhor forma possível o seu distrito. Treinam desde cedo. A economia dos distritos é profundamente planificada e controlada pela cidade. Numa citação do filme, o grande líder (da cidade) assume que os recursos provenientes dos distritos são fundamentais. Pelo meio, uma pequena rebelião num dos distritos é prontamente apaziguada pelas forças da cidade.
São os meus dois centavos. O meu bitaite. Outros verão no filme uma crítica a reality shows. Um hino à força do amor. Uma réplica da facilidade com que a moralidade de cada um é corrompida em função situações extremas, de vida ou morte. Mas não me lixem. (Sem conhecer os restantes livros/filme, vou procurar fazê-lo,) Para mim o Hunger Games tem por alí laivos de retrato de uma forma de organização imperialista. Da fase superior do capitalismo, diria o camarada Lenine. A fome de alguns distritos é a fonte de bem-estar e liberdade de outra cidade. Como se fosse um jogo.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
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