terça-feira, 21 de janeiro de 2014

já que falas nisso

É uma pergunta interessante Luís. 

Há quem diga que era isso que o Zeca Afonso queria afirmar de uma forma literal: o povo é quem mais ordena, sempre e em todo o lado. 
Mas há também quem ache que esse dito é discriminatório para a grande extensão de área rural do nosso país, pelas palavras que lhe seguem: o povo é quem mais ordena, dentro de ti ò cidade. Já passei por aldeias onde ouvir o nome Zeca Afonso é sacrilégio, por se pensar que a cantiga do homem foi forma de incentivo ao despotismo fora dos grandes centros urbanos. 
Uma terceira facção, menos falada nos dias de hoje, defende que a intenção do Zeca era somente despoletar uma comuna popular, bem contida em Grândola. Mais, essa forma de governo haveria de promover Grândola de vila a cidade, mal o povo fosse soberano.

Das três uma, ou cidade é uma forma de alegoria e a cantiga diz respeito ao país inteiro; ou cidade utiliza-se com o propósito de afirmar que o povo só conseguirá ordenar longe das zonas rurais; ou o povo, na realidade, só tem o direito de ordenar em Grândola.

Não sei a resposta à tua pergunta, o meu coração divide-se pelas três hipóteses. O Zeca Afonso morreu. Mas a memória histórica do nosso Portugal não pode resvalar quanto a esta questão. Acho, sinceramente, que devíamos de uma vez por todas sondar os portugueses e democratizar uma resposta para essa dúvida acutilante. É claramente uma matéria de consciência. Proponho um referendo. Talvez estejas em melhor posição para fazer chegar esta proposta à JSD. Continuava a custar dinheiro e preencher agenda política, mas referendar este tema até tem a pequena vantagem de não estar a perguntar ao povo o que acha acerca de vedar direitos e discriminar uma parte desse povo.

A propósito disto da co-adopção.


Então mas não é o povo quem mais ordena, Fernando?

domingo, 19 de janeiro de 2014

Insónia

Descobri como Maria mãe de Jesus engravidou. Estava com a imaginação fértil.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O vestido encarnado

Ela era alta e morena, mas com tom de pele assim cor de algodão. Tinha aquela indecifrável beleza de quem anda com o cabelo apanhado na nuca e usa óculos quadrados de arquitecto. Aquela beleza de parecer um bongo visto de cima. Um bongo de óculos. Trabalhava naquela cafetaria bem americana de avental azul justo à cintura, com seu nome brilhante numa placa ao peito, saltos de tropeçar alto e bule na mão. Bule de plástico na mão, de mesa em mesa ou no balcão.

Ele usava fato escuro a tinha uma barba rente que lhe dava um ar marítimo. Um ar de quem faz vela antes de entrar no elevador do escritório. Tinha aquele charme da meia-idade que mantém as pernas finas mesmo quando a barriga começa a fazer uma curvinha.

Ela foi à mesa dele, de bule na mão.

- Senhor, posso anotar o seu…
- Cristina? Não acredito, és mesmo tu Cristina?
- Mas eu não…

(Ele interrompe e fala depressa sem desligar seus olhos dos olhos dela)

- Eu não acredito. Continuas igual Cristina, mesmo passados tantos anos. Ah! Não acredito. Sim, eu devia ter-me lembrado que moravas aqui. Mudei-me há poucas semanas, nunca pensei que te pudesse voltar a encontrar. Mas estás aqui, e continuas linda. Estás aqui Cristina...

(Ele sorri aquele sorriso emocionado que soluça de vez em quando)

- Senhor, deve ser algum…
- Não me chames de Senhor, chama-me de Pedro. Senta, senta aqui.

(Ele segura o bule com a mão direita, e com a esquerda puxa delicadamente o braço dela)

(Ele continua, agora mais pausado)

- Quantos anos passaram Cristina? Sete? Oito anos? Eu nunca me esqueci daquelas nossas férias nas Ilhas. Eramos tão jovens, mas nunca me esqueci de ti. Lembraste que tudo começou quando eu quase de atropelei com minha mota à saída do aeroporto, no dia que chegaste? Ah! Eramos tão jovens. Eramos tão descuidados. Eu fiquei apavorado. O teu ar tão frágil, tão delicado, tão orquídea de jardim…
- Mas eu nunca fui…
- Tu foste tão compreensiva. Saímos do hospital com um jantar marcado, quem diria, depois de quase te atropelar? Ah! Contado assim parece mentira. E que jantar que foi, Cristina. No terraço junto ao mar, sobre a água cristalina do Índico que reflectia nos teus olhos que reflectiam nos meus. A lua. Lembraste de como a lua se distorcia na ondulação do horizonte? E então, discretamente, o meu indicador e o do meio caminhavam para junto da tua mão, entrelaçando-se no silêncio da alvorada…

(Ele olha profundamente os olhos dela, que cora ainda ecoando a sua voz grave e segura)

- Mas eu não me lembro…
- E depois veio aquele dia inesquecível. Éramos tão jovens e tão românticos e tu estavas lá, na proa do nosso barco, fechando os olhos para o vento quente do continente. Estavas lá tão verdadeira, tão margarida a respirar o sol. Eu abracei-te assim colocando o queixo no teu ombro, embrulhando o teu ventre com minha palma enquanto a outra deslizava pelo ombro. Lembro-me do teu cheiro de jasmim. De jasmim orvalho. E então, quando o mar agitou e respingou na tua cara tu assustaste-te, e fizeste aquele olhar de peixe-balão. Viraste-te com o cabelo colado no contorno da cara, sorrindo como uma criança no natal, e eu vi aquela gota que se soltou da tua franja, driblou o limite da tua sobrancelha e caiu assim… no limite do teu lábio. E eu fui atrás dela. Também te lembras do nosso primeiro beijo, não lembras?

(Ela não respondeu, continuou corada e sorriu)

- Vamos jantar amanhã. Vamos comer um Chateaubriand, isso, eu lembro-me que tu adoras. Apanho-te aqui às 20h30, combinado Cristina? Leva aquele vestido encarnado que eu adoro. Sim?

(Ela hesita e solta um sim trémulo)

- Sim…

Ele levanta-se, aperta o botão de cima do casaco e coloca o chapéu. Mas quem é que ainda usa chapéu hoje em dia? Ele usa. Deu-lhe um beijo lento na bochecha, atrevidamente perto da boca dela. Ela não se mexeu. Continua sem se mexer. Soltou mais um sorriso. E então, quando ele abria a porta daquela cafetaria bem americana virou-se e perguntou:

- Rosas ainda são as tuas preferidas?
- Sempre foram.

Ela chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava um sapato com o outro. No branco do tecto tentou encontrar um sinal que explicasse a loucura do dia. Será que uma mentira muito bem contada se poderia transformar numa verdade? Nunca tinha viajado. Nunca tinha pisado num barco. Nunca tinha recebido rosas. Nunca nada. Mas adoraria. A verdade é que adoraria.

Ela chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava o outro sapato com o pé. O que seria um Chateaubriand? Um peixe esquisito? Sim, deve ser um peixe esquisito. Ou um pássaro. Ela prometeu que não ia tentar descobrir até amanhã. Queria mais uma surpresa, pelo menos mais uma. Seja o que deus quiser. Já chega a dor de cabeça de ter que encontrar, assim, de um dia para o outro, um vestido encarnado.

Ele chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto desapertava o cinto das calças. Cintos incomodam muito mais do que sapatos. Ele? Bem, ele estava tranquilo. Faz sempre a mesma brincadeira quando vê uma moça bonita com o nome brilhante numa placa ao peito.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Aqui jazz (II)

Chego à conclusão que o assunto destas próximas linhas vais ser a vergonha.

O Aqui Jazz era, de facto, o melhor bar da Guarda. O seu fim é de uma pena vergonhosa.

Já que o assunto foi levantado, quero trazer para a conversa uma banda. São os Portico Quartet. De há uns tempos para cá, a circunstância fez-me associar esse seu nome a um grupo terrorista de linchamento de pórticos de portagem. Nem essa imagem pouco romântica tirou da minha cabeça um pouco que fosse do prazer de os ouvir. Já falei deles há uns tempos, e é uma vergonha eu ser tão repetitivo. A minha música favorita é esta,

  


acho cada vez que a ouço imagino uma curta metragem qualquer. Talvez a música arrisque ser herética ao tentar contar uma história se apoiar nas palavras. Mas por falar em histórias,

   


o instrumento que dá um som tão característico a estes tipos aparece aqui logo no inicio desta música. Chama-se Hang e foi criado apenas em 2000. Se souberem dum instrumento mais novo que este avisem. Diz que só há duas pessoas no mundo a construi-los. Fazem-se por encomenda. Cada um custa uns parcos mil ou dois mil e tal dólares, e é uma vergonha que não me paguem por este espaço publicitário. É também uma vergonha ter roubado, além do tema, o formato ao Felipe. Como penitência, abro o meu coração à partilha e confesso-vos a minha segunda musica favorita,


  


No fundo, a vergonha é um útil mecanismo de defesa. No quotidiano, talvez contra a exuberância ou os maus-costumes. Paralisa-nos quando tem que paralisar. Ou faz-nos agir quando a inércia se transforma em desconforto. Aqui, defendeu-me de não ter coisa nenhuma para falar. Que vergonha.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Na janela de São Paulo

Quando na janela de São Paulo vi esta chuva tropical bíblica, pensei logo nos coitados dos mosquitos. Imagina se fosses um mosquito no meio de uma tempestade tropical. Ou pior, um mosquito sem abrigo numa tempestade tropical. Ou pior ainda, um mosquito com excesso de peso e sem abrigo numa tempestade tropical. Que merda hã?

Mas calma. Não fiques triste nem preocupado/a. Eu fui pesquisar a vasta literatura sobre o assunto, e descobri o seguinte: "O estudo mostra que só há risco de morte quando os mosquitos voam muito perto do chão durante a chuva. A gota que atinge o inseto pode carregá-lo por uma distância de até vinte vezes o seu tamanho e, ao voar próximo ao chão, o animal pode não ter tempo de se separar da gota e colidir com o solo ou se afogar em uma poça de água".

E aí fiquei mais descansado. Acho que se eu fosse um mosquito não seria daqueles covardes que chupam tornozelos. Adoro pescoços. E vôos altos.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Aqui jazz (I)

Uma série sobre música. Sobre músicos, melhor. Aqui jazz, em primeiro lugar, porque é aqui. E não que aqui só possam jazer notas de jazz, mas notas de jazz marcam o padrão do que merece estar jazido aqui. Em terceiro, porque já jazem a maior parte dos que me jazzem.

(Por último, porque é o melhor bar da Guarda).

Vamos inaugurar com Eugênio Avelino (nem jaz nem jazz). Mais conhecido por Xangai, que era o nome da gelataria do pai dele em sua cidade natal, em Vitória da Conquista, interior da Bahia, Brasil. No sertão. Parece que todos os discos dele moram na estante lá de casa. Como desconfio sempre de capas a preto e branco, nunca ouvi. Mas devia ter ouvido.

Como quase sempre acho chatas as críticas de musicólogos (muitas palavras), vou tentar deixar apenas a essência. Sim, esta até poderia ser uma série de essências, de dar uma picada para ver se faz reacção. Três músicas, três picadas. Vamos lá.

A primeira coisa que me impressiona em Xangai é a sua aparente imortalidade. Parece que os últimos 20 anos contornaram a sua cara, voz e energia. Um concerto dele é uma experiência brilhante.


E embora Xangai seja mais intérprete do que compositor, parece trazer nas letras da sua voz uma herança de tal forma autêntica que lhe confere uma propriedade histórica arrepiante.


E claro que também escolhe aquela poesia bela e inocente (que imagino cantada com um sorriso no canto da boca) que canta o encanto daquela mulher.


"Um passo formoso é a moça
Uma árvore frondosa
É o seu dorso"

Confesso que começar com música regional brasileira é um movimento egoísta. É também uma picada para ver se outros Mentirosos me brindam com seus jazigos. Seria uma delícia. Na falta de tema ficcional ou construção sobre a realidade, vou-vos apresentando notas que talvez gostem um dia. Ou não.


Até jazz