Nos
últimos dias tenho visto a saudade. Vejo-a atrás de mim, vejo-a a seguir-me. Mais
ninguém a vê, aparentemente. É bonita, não é simpática. Eu vejo-a, bem de
frente, mas ela não me olha, não me quer olhar. É como se estivesse sempre a
olhar para outro lado, a fazer outra coisa, a ver algo mais, mas soubesse sempre onde me encontrar. Não é
como a sombra, não é um mero efeito de luz que nos persegue indiscriminadamente.
A saudade simplesmente está ali. Tenho medo de a tocar, mas sei que conseguia,
se quisesse. Às vezes olho para trás, para ver se ela lá está, e vejo sempre
que sim. Às vezes como se aparecesse de repente quando me viro, como se ainda
tivesse o vestido a voar, acabada de chegar ao local. A saudade é uma mulher, é
sempre uma mulher. Não faz sentido de outra forma. Está sempre impecavelmente
bem-vestida, sempre no seu melhor, sempre como esperamos que esteja. A saudade
é a melhor das mulheres, melhor do que todas as outras. Cheira ao cheiro do
quarto pela manhã, cheira ela e a nós, tudo junto e misturado. Quando me deito
ela vem comigo, eu vejo-a a entrar na cama, sem desmanchar os lençóis, e a
virar-me as costas para que eu a vá abraçar e aquecer. Não lhe toco, mas
viro-me para ela. Tenho adormecido a ver-lhe os cabelos, a ouvir-lhe a respiração
que eu sei que está lá. Deixo-lhe o pijama dela na almofada, mas sei que não
precisa. Quando sonho, vejo-a a olhar-me nos olhos. Não sei se é a saudade ou
se é mesmo ela, mas olha-me nos olhos, e eu abraço-a. Acordo de seguida. A
saudade já não está ali, comigo. Ela volta quando lhe apetece, ou quando me
apetece. Volta quando tem de voltar. Pena ter de voltar tantas vezes.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Margarida
Tenho um pecado
que nunca confessei, e ainda acho que vou parar ao inferno por causa disso. Eu
era criança e devia ter uns seis ou sete anos, não me lembro bem. Era Outono e
eu estava a passear entre as árvores da nossa quinta lá em Vila Real. Nós tínhamos
muitas árvores de tudo quanto era fruta e havia muita fartura o ano inteiro. Ao
longe eu vi um garotinho pobrezinho assim da minha idade a roubar maçãs das
nossas árvores e aproximei-me. Quando ele se apercebeu que eu estava a ser
observado começou a preparar-se para fugir e eu disse ‘fica, não tem problema.
Leva quantas quiseres’. Ele hesitou, olhou-me nos olhos e só então continuou a
apanhar todas as que conseguia. Mas eram tantas as maçãs que ele queria carregar
que eu disse-lhe para dobrar a sua camisola e ajudei a improvisar uma sacola em
frente à sua barriga. Quando já não cabia nem mais uma fruta ele olhou-me nos
olhos, cansado, com as duas mãos fortemente agarradas no limite da sacola
improvisada, e sorriu. Não sei se ele ia agradecer-me, talvez fosse. Nesse
mesmo instante em que ele olhou para mim, preparado para partir, comecei a enche-lo
de bofetadas. Tantas mas tantas bofetadas. Até hoje eu não consigo perceber
porque bati tanto no pobre rapaz. Eu sabia que ele não ia largar as maçãs e por
isso ele não saía do lugar. Eu nunca tinha batido em ninguém. As minhas irmãs
batiam-me quando fazia alguma coisa errada. 'Deve ser bom bater nos outros', acho que foi
o que eu pensei na altura. Foi a única vez que bati em alguém. Não gostei.
Espero que não vá parar ao inferno por causa disso.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
abriu a época de caça
Dei com o facebook do Portugal Pró-Vida. Isso mexeu, de certa forma, com aquilo que penso.
Vejamos esta imagem. Sou sensível a estas coisas.
Vejam a felicidade da criança. A forma terna mas convicta com que diz sim à vida. O sorrir com os olhos azuis. Toda ela agradece à vida. Imagino a sessão fotográfica. Alguém que lhe pergunta, és pró vida? E a crinaça logo brilha e grita Sim Sim Sim. O polegar serve de haste de bandeira. Uma bandeira que também gritaria Sim Sim Sim, e que só não foi fotografada por não precisar de o ser. Uma criança tão certa, com a sabedoria que é tão infantial quão verdadeira e genuína. Se ela tem tantas certezas quanto a apoiar o Portugal Pró Vida, quem sou eu para não o fazer. Pergunta-me, e tu? e dei comigo a sussurrar Sim Sim Sim.
E foi de ficha quase assinada, dinheiro pronto para a primeira quota, coração cheiro de amor, que dei com isto...
E é por isso que continuo um progressita reviralhista anti vida :(
já que falas nisso
É uma pergunta interessante Luís.
Há quem diga que era isso que o Zeca Afonso queria afirmar de uma forma literal: o povo é quem mais ordena, sempre e em todo o lado.
Mas há também quem ache que esse dito é discriminatório para a grande extensão de área rural do nosso país, pelas palavras que lhe seguem: o povo é quem mais ordena, dentro de ti ò cidade. Já passei por aldeias onde ouvir o nome Zeca Afonso é sacrilégio, por se pensar que a cantiga do homem foi forma de incentivo ao despotismo fora dos grandes centros urbanos.
Uma terceira facção, menos falada nos dias de hoje, defende que a intenção do Zeca era somente despoletar uma comuna popular, bem contida em Grândola. Mais, essa forma de governo haveria de promover Grândola de vila a cidade, mal o povo fosse soberano.
Das três uma, ou cidade é uma forma de alegoria e a cantiga diz respeito ao país inteiro; ou cidade utiliza-se com o propósito de afirmar que o povo só conseguirá ordenar longe das zonas rurais; ou o povo, na realidade, só tem o direito de ordenar em Grândola.
Não sei a resposta à tua pergunta, o meu coração divide-se pelas três hipóteses. O Zeca Afonso morreu. Mas a memória histórica do nosso Portugal não pode resvalar quanto a esta questão. Acho, sinceramente, que devíamos de uma vez por todas sondar os portugueses e democratizar uma resposta para essa dúvida acutilante. É claramente uma matéria de consciência. Proponho um referendo. Talvez estejas em melhor posição para fazer chegar esta proposta à JSD. Continuava a custar dinheiro e preencher agenda política, mas referendar este tema até tem a pequena vantagem de não estar a perguntar ao povo o que acha acerca de vedar direitos e discriminar uma parte desse povo.
domingo, 19 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
O vestido encarnado
Ela era alta e
morena, mas com tom de pele assim cor de algodão. Tinha aquela indecifrável
beleza de quem anda com o cabelo apanhado na nuca e usa óculos quadrados de
arquitecto. Aquela beleza de parecer um bongo visto de cima. Um bongo de
óculos. Trabalhava naquela cafetaria bem americana de avental azul justo à
cintura, com seu nome brilhante numa placa ao peito, saltos de tropeçar alto e
bule na mão. Bule de plástico na mão, de mesa em mesa ou no balcão.
Ele usava fato
escuro a tinha uma barba rente que lhe dava um ar marítimo. Um ar de quem faz
vela antes de entrar no elevador do escritório. Tinha aquele charme da
meia-idade que mantém as pernas finas mesmo quando a barriga começa a fazer uma
curvinha.
Ela foi à mesa
dele, de bule na mão.
- Senhor, posso
anotar o seu…
- Cristina? Não
acredito, és mesmo tu Cristina?
- Mas eu não…
(Ele interrompe e
fala depressa sem desligar seus olhos dos olhos dela)
- Eu não
acredito. Continuas igual Cristina, mesmo passados tantos anos. Ah! Não
acredito. Sim, eu devia ter-me lembrado que moravas aqui. Mudei-me há poucas
semanas, nunca pensei que te pudesse voltar a encontrar. Mas estás aqui, e continuas
linda. Estás aqui Cristina...
(Ele sorri aquele
sorriso emocionado que soluça de vez em quando)
- Senhor, deve
ser algum…
- Não me chames
de Senhor, chama-me de Pedro. Senta, senta aqui.
(Ele segura o
bule com a mão direita, e com a esquerda puxa delicadamente o braço dela)
(Ele continua,
agora mais pausado)
- Quantos anos
passaram Cristina? Sete? Oito anos? Eu nunca me esqueci daquelas nossas férias nas Ilhas. Eramos tão jovens, mas nunca me esqueci de ti. Lembraste que tudo começou
quando eu quase de atropelei com minha mota à saída do aeroporto, no dia que
chegaste? Ah! Eramos tão jovens. Eramos tão descuidados. Eu fiquei apavorado. O
teu ar tão frágil, tão delicado, tão orquídea de jardim…
- Mas eu nunca
fui…
- Tu foste tão
compreensiva. Saímos do hospital com um jantar marcado, quem diria, depois de
quase te atropelar? Ah! Contado assim parece mentira. E que jantar que foi,
Cristina. No terraço junto ao mar, sobre a água cristalina do Índico que
reflectia nos teus olhos que reflectiam nos meus. A lua. Lembraste de como a lua
se distorcia na ondulação do horizonte? E então, discretamente, o meu indicador
e o do meio caminhavam para junto da tua mão, entrelaçando-se no silêncio da
alvorada…
(Ele olha
profundamente os olhos dela, que cora ainda ecoando a sua voz grave e segura)
- Mas eu não me
lembro…
- E depois veio aquele
dia inesquecível. Éramos tão jovens e tão românticos e tu estavas lá, na proa
do nosso barco, fechando os olhos para o vento quente do continente. Estavas lá
tão verdadeira, tão margarida a respirar o sol. Eu abracei-te assim colocando o
queixo no teu ombro, embrulhando o teu ventre com minha palma enquanto a outra
deslizava pelo ombro. Lembro-me do teu cheiro de jasmim. De jasmim orvalho. E
então, quando o mar agitou e respingou na tua cara tu assustaste-te, e fizeste
aquele olhar de peixe-balão. Viraste-te com o cabelo colado no contorno da
cara, sorrindo como uma criança no natal, e eu vi aquela gota que se soltou da tua
franja, driblou o limite da tua sobrancelha e caiu assim… no limite do teu
lábio. E eu fui atrás dela. Também te lembras do nosso primeiro beijo, não
lembras?
(Ela não
respondeu, continuou corada e sorriu)
- Vamos jantar
amanhã. Vamos comer um Chateaubriand, isso, eu lembro-me que tu adoras.
Apanho-te aqui às 20h30, combinado Cristina? Leva aquele vestido encarnado que
eu adoro. Sim?
(Ela hesita e
solta um sim trémulo)
- Sim…
Ele levanta-se,
aperta o botão de cima do casaco e coloca o chapéu. Mas quem é que ainda usa
chapéu hoje em dia? Ele usa. Deu-lhe um beijo lento na bochecha, atrevidamente perto
da boca dela. Ela não se mexeu. Continua sem se mexer. Soltou mais um sorriso.
E então, quando ele abria a porta daquela cafetaria bem americana virou-se e
perguntou:
- Rosas ainda são
as tuas preferidas?
- Sempre foram.
Ela chegou no
apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava um sapato com o outro. No branco
do tecto tentou encontrar um sinal que explicasse a loucura do dia. Será que
uma mentira muito bem contada se poderia transformar numa verdade? Nunca tinha
viajado. Nunca tinha pisado num barco. Nunca tinha recebido rosas. Nunca nada. Mas
adoraria. A verdade é que adoraria.
Ela chegou no
apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava o outro sapato com o pé. O que
seria um Chateaubriand? Um peixe esquisito? Sim, deve ser um peixe esquisito. Ou
um pássaro. Ela prometeu que não ia tentar descobrir até amanhã. Queria mais
uma surpresa, pelo menos mais uma. Seja o que deus quiser. Já chega a dor de
cabeça de ter que encontrar, assim, de um dia para o outro, um vestido
encarnado.
Ele chegou no
apartamento e caiu no sofá enquanto desapertava o cinto das calças. Cintos
incomodam muito mais do que sapatos. Ele? Bem, ele estava tranquilo. Faz sempre
a mesma brincadeira quando vê uma moça bonita com o nome brilhante numa placa
ao peito.
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