Depois de Hollande se ter armado em herói, Obama veio mostrar quem manda.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
dois sem-abrigo num semáforo
Quando a luz passa a vermelho,
eles lá vão. Dois homens não novos, barba por fazer, um deles
coxeia – nem interessa muito, mas duvido se o coxear trará mais
benefício por despertar dó ou prejuízo por tornar lentos os
movimentos. Vestem um colete vermelho, a legitimar a venda da revista
Cais. Até está calor, mas há vidros que se fecham com o seu
chegar.
Os vidros fechados pregam sustos porque
os dois homens podem esbracejar, bater com os nós dos dedos nas
janelas, falar, tudo é infrutífero. Um dos sem-abrigo chega a
julgar que em vez de carros está a abordar caixões onde o condutor
é um cadáver, talvez mesmo de cera, com a cara para a frente sem
pestanejar. Pode isto nem ser metáfora, provavelmente existe uma parte da
pessoa que morre momentaneamente para que nasça essa indolência
própria de semáforo vermelho.
Depois, o acordar. A paralisia do
condutor dá lugar a uns pequenos movimentos. A mão mexe para
corrigir a manete das mudanças. Se está vivo, talvez possa estender
a mão com umas moedas. Não. Quando o semáforo fica verde-esperança, a esperança dos dois homens não novos desaparece. Hora de
voltar ao passeio.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
A saudade.
Nos
últimos dias tenho visto a saudade. Vejo-a atrás de mim, vejo-a a seguir-me. Mais
ninguém a vê, aparentemente. É bonita, não é simpática. Eu vejo-a, bem de
frente, mas ela não me olha, não me quer olhar. É como se estivesse sempre a
olhar para outro lado, a fazer outra coisa, a ver algo mais, mas soubesse sempre onde me encontrar. Não é
como a sombra, não é um mero efeito de luz que nos persegue indiscriminadamente.
A saudade simplesmente está ali. Tenho medo de a tocar, mas sei que conseguia,
se quisesse. Às vezes olho para trás, para ver se ela lá está, e vejo sempre
que sim. Às vezes como se aparecesse de repente quando me viro, como se ainda
tivesse o vestido a voar, acabada de chegar ao local. A saudade é uma mulher, é
sempre uma mulher. Não faz sentido de outra forma. Está sempre impecavelmente
bem-vestida, sempre no seu melhor, sempre como esperamos que esteja. A saudade
é a melhor das mulheres, melhor do que todas as outras. Cheira ao cheiro do
quarto pela manhã, cheira ela e a nós, tudo junto e misturado. Quando me deito
ela vem comigo, eu vejo-a a entrar na cama, sem desmanchar os lençóis, e a
virar-me as costas para que eu a vá abraçar e aquecer. Não lhe toco, mas
viro-me para ela. Tenho adormecido a ver-lhe os cabelos, a ouvir-lhe a respiração
que eu sei que está lá. Deixo-lhe o pijama dela na almofada, mas sei que não
precisa. Quando sonho, vejo-a a olhar-me nos olhos. Não sei se é a saudade ou
se é mesmo ela, mas olha-me nos olhos, e eu abraço-a. Acordo de seguida. A
saudade já não está ali, comigo. Ela volta quando lhe apetece, ou quando me
apetece. Volta quando tem de voltar. Pena ter de voltar tantas vezes.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Margarida
Tenho um pecado
que nunca confessei, e ainda acho que vou parar ao inferno por causa disso. Eu
era criança e devia ter uns seis ou sete anos, não me lembro bem. Era Outono e
eu estava a passear entre as árvores da nossa quinta lá em Vila Real. Nós tínhamos
muitas árvores de tudo quanto era fruta e havia muita fartura o ano inteiro. Ao
longe eu vi um garotinho pobrezinho assim da minha idade a roubar maçãs das
nossas árvores e aproximei-me. Quando ele se apercebeu que eu estava a ser
observado começou a preparar-se para fugir e eu disse ‘fica, não tem problema.
Leva quantas quiseres’. Ele hesitou, olhou-me nos olhos e só então continuou a
apanhar todas as que conseguia. Mas eram tantas as maçãs que ele queria carregar
que eu disse-lhe para dobrar a sua camisola e ajudei a improvisar uma sacola em
frente à sua barriga. Quando já não cabia nem mais uma fruta ele olhou-me nos
olhos, cansado, com as duas mãos fortemente agarradas no limite da sacola
improvisada, e sorriu. Não sei se ele ia agradecer-me, talvez fosse. Nesse
mesmo instante em que ele olhou para mim, preparado para partir, comecei a enche-lo
de bofetadas. Tantas mas tantas bofetadas. Até hoje eu não consigo perceber
porque bati tanto no pobre rapaz. Eu sabia que ele não ia largar as maçãs e por
isso ele não saía do lugar. Eu nunca tinha batido em ninguém. As minhas irmãs
batiam-me quando fazia alguma coisa errada. 'Deve ser bom bater nos outros', acho que foi
o que eu pensei na altura. Foi a única vez que bati em alguém. Não gostei.
Espero que não vá parar ao inferno por causa disso.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
abriu a época de caça
Dei com o facebook do Portugal Pró-Vida. Isso mexeu, de certa forma, com aquilo que penso.
Vejamos esta imagem. Sou sensível a estas coisas.
Vejam a felicidade da criança. A forma terna mas convicta com que diz sim à vida. O sorrir com os olhos azuis. Toda ela agradece à vida. Imagino a sessão fotográfica. Alguém que lhe pergunta, és pró vida? E a crinaça logo brilha e grita Sim Sim Sim. O polegar serve de haste de bandeira. Uma bandeira que também gritaria Sim Sim Sim, e que só não foi fotografada por não precisar de o ser. Uma criança tão certa, com a sabedoria que é tão infantial quão verdadeira e genuína. Se ela tem tantas certezas quanto a apoiar o Portugal Pró Vida, quem sou eu para não o fazer. Pergunta-me, e tu? e dei comigo a sussurrar Sim Sim Sim.
E foi de ficha quase assinada, dinheiro pronto para a primeira quota, coração cheiro de amor, que dei com isto...
E é por isso que continuo um progressita reviralhista anti vida :(
já que falas nisso
É uma pergunta interessante Luís.
Há quem diga que era isso que o Zeca Afonso queria afirmar de uma forma literal: o povo é quem mais ordena, sempre e em todo o lado.
Mas há também quem ache que esse dito é discriminatório para a grande extensão de área rural do nosso país, pelas palavras que lhe seguem: o povo é quem mais ordena, dentro de ti ò cidade. Já passei por aldeias onde ouvir o nome Zeca Afonso é sacrilégio, por se pensar que a cantiga do homem foi forma de incentivo ao despotismo fora dos grandes centros urbanos.
Uma terceira facção, menos falada nos dias de hoje, defende que a intenção do Zeca era somente despoletar uma comuna popular, bem contida em Grândola. Mais, essa forma de governo haveria de promover Grândola de vila a cidade, mal o povo fosse soberano.
Das três uma, ou cidade é uma forma de alegoria e a cantiga diz respeito ao país inteiro; ou cidade utiliza-se com o propósito de afirmar que o povo só conseguirá ordenar longe das zonas rurais; ou o povo, na realidade, só tem o direito de ordenar em Grândola.
Não sei a resposta à tua pergunta, o meu coração divide-se pelas três hipóteses. O Zeca Afonso morreu. Mas a memória histórica do nosso Portugal não pode resvalar quanto a esta questão. Acho, sinceramente, que devíamos de uma vez por todas sondar os portugueses e democratizar uma resposta para essa dúvida acutilante. É claramente uma matéria de consciência. Proponho um referendo. Talvez estejas em melhor posição para fazer chegar esta proposta à JSD. Continuava a custar dinheiro e preencher agenda política, mas referendar este tema até tem a pequena vantagem de não estar a perguntar ao povo o que acha acerca de vedar direitos e discriminar uma parte desse povo.
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