quarta-feira, 19 de março de 2014

Escrever para lembrar

Não é arriscado dizer que a escrita é uma extensão da memória. Nem sequer é original. O Dr. Juvenal Urbino d'O Amor nos Tempos de Cólera encarava o esquecimento que a idade traz com inúmeros apontamentos, perdidos pelos vários bolsos. Contra a decrepitude, uma forma de luta corajosa. Escrever para lembrar. O que não deixa de ser parecido ao acaso dos arqueólogos encontrarem mensagens dos primórdios da humanidade, significados que sobrevivem a qualquer outra lembrança. A escrita como início da história, a estender a própria existência. Escrever para lembrar.

Pode assim falar-se de uma folha em branco como anos perdidos. Em sentido inverso, a esperança média de vida de uma pessoa é um número incompleto, se lhe faltar somar o tempo que demoram as palavras. (Tenho inveja dos escritores, animais pagos para durar mais anos.) Tenho também um problema momentâneo, confesso que comecei a escrever tudo isto com um propósito bem interessante, mas esqueci-me do que ia dizer. Era qualquer coisa relacionada com esse livro, O Amor nos Tempos de Cólera, mas bem, fica para a próxima quarta.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A altura em que só ouvi música pop.

Em termos musicais, nunca fui uma pessoa normal, se entendermos por normal ouvir aquilo que nos é dado pelas principais rádios nacionais. Sempre vivi entre os anos 60/70 e 2000 para a frente, nunca fui à bola com os grandes hits, nunca fui muito do mainstream (sim, pretensioso; mas factualmente correcto). Veja-se a RFM, que todos sabemos que pouco mais é do que uma mistura entre a Comercial e a M80. Um grande filão são os one hit wonders que toda a gente sabe de cor, provavelmente dos anos 80 e inícios de 90, de levar às lágrimas. Ontem, porém, era quase só pop. Levei com os ié-iés do Bruno Mars, com a gritaria da Alicia Keys (a gritar daquela maneira, ninguém duvida que está mesmo a arder), com a falta de tudo o que se possa achar música da Katy Perry (eu já tinha visto videoclips, e nunca reparei que aquilo era tão excruciante), com a Miley Cyrus a tentar demolir-me os tímpanos, com as boysband que se acham número um (One Direction, One Republic, mas zero de música) ou Anselmo Ralph, aquela pessoa que apenas tem uma coisa pior que as suas letras: o início dos seus videoclips. E para vocês, meus amigos amantes da MPB, até um assassinato em formato remix cometeram, tudo com a voz da Marisa Monte pelo meio.

Houve uma altura em que só ouvi música pop. Foram três horas muito longas, mas depois começou o relato do Sporting.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

uma opinião sobre as facturas da sorte

Dez euros em facturas vão dar direito a ter um cupão da sorte, fala-se por estes dias. E se a sorte bater mesmo à porta, trará com ela a felicidade de ganhar um carro de gama alta. Dez milhões de euros são o total deste investimento público.

Li duas críticas que parecem bastante razoáveis. Em primeiro lugar, aponta-se o dedo à medida por ser profundamente desigual na forma como trata ricos e pobres: quem possui mais, mais gasta; quem mais gasta, mais probabilidade tem de ganhar o carro. Enfim, não serão surpresa as propostas deste governo que se pautem pelo fomentar da desigualdade social. Em segundo lugar, o facto de serem oferecidos carros de gama alta, dada a sua natureza poluente, não é um sinal carinhoso para o ambiente.

Passando uma vista de olhos pelo decreto de lei que propõe esta medida, há outra coisa que me parece engraçado destacar. Lê-se que “a factura da sorte tem por finalidade valorizar e premiar a cidadania fiscal dos contribuintes no combate à economia paralela”. Será?

Um velhinho estudo de 1970 por Richard Titmuss, tão badalado na área da economia comportamental, faz-nos pensar acerca da cidadania e dos efeitos dos incentivos. Nesse estudo, o autor montou um cenário experimental em que os participantes foram colocados numa de duas situações: ou lhes era inquirido se queriam doar sangue livremente ou se queriam doar sangue a troco de um incentivo monetário. Estranhamente, quando a recompensa monetária é introduzida, as pessoas tenderam a doar bem menos. Doar sangue tem um valor enorme, humano, moral, cívico. Um valor que não pode ser coberto por nenhum prémio ou estímulo positivo. Quando é colocada a recompensa neste acto, a decisão da pessoa passa perniciosamente a ser vendo ou não vendo, ao invés de faço o bem ou faço o mal.

Um outro estudo, este com a introdução estímulo negativo, foi levado a cabo pelo economista Uri Gneezy. Aqui, o autor observou o comportamento em dez infantários diferentes, quando foi introduzida uma multa a ser aplicada aos pais que se atrasassem a “recolher” as crianças. Contra-intuitivamente, os atrasos aumentaram de forma significativa, assim que as multas começaram a ser aplicadas. Novamente, aquilo que foi introduzido com o estímulo foi um preço em algo que não deveria ter um. A decisão dos agentes é deturpada. Entre fazer o correcto (chegar a horas) ou fazer o errado (atrasar), a pessoa decide como se de um investimento se tratasse: não faz mal que as funcionárias tenham que passar mais tempo no infantário por culpa do meu atraso, paguei para isso.

A equidade fiscal, a contribuição monetária para um estado que proteja as pessoas, o combate à economia paralela, devem ser valores da cidadania. Mas tal como nos dois estudos citados, nos quais os estímulos motivaram exactamente decisões negativas, é possível que a medida do governo possa ser adversa. Se é certo que o decreto de lei fala de cidadania fiscal, talvez a factura da sorte seja algo que retira precisamente a cidadania dos contribuintes. Olha para o cidadão como jogador. Duas conclusões. Quando voltar a perder tempo a soletrar um número de identificação fiscal, posso cair no mesmo raciocínio que me leva a não jogar no euro-milhões: o esforço não compensa a probabilidade baixa de ganhar um carro. Talvez fosse bem mais útil promover a qualidade e tornar evidente a necessidade das instituições que promovem o nosso bem-estar, as quais deveriam ser meta última da nossa responsabilidade fiscal. Talvez fosse bem mais útil dar certezas que o pagar e fazer pagar impostos é o gesto correcto. 

(as fontes dos estudos estão na net, não ia fazer disto uma coisa séria e expô-las, ora essa, é ir ao google) 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Estou te explicando...

...para te confundir.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Choque de civilizações.



Depois de Hollande se ter armado em herói, Obama veio mostrar quem manda.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

dois sem-abrigo num semáforo


Quando a luz passa a vermelho, eles lá vão. Dois homens não novos, barba por fazer, um deles coxeia – nem interessa muito, mas duvido se o coxear trará mais benefício por despertar dó ou prejuízo por tornar lentos os movimentos. Vestem um colete vermelho, a legitimar a venda da revista Cais. Até está calor, mas há vidros que se fecham com o seu chegar. 

Os vidros fechados pregam sustos porque os dois homens podem esbracejar, bater com os nós dos dedos nas janelas, falar, tudo é infrutífero. Um dos sem-abrigo chega a julgar que em vez de carros está a abordar caixões onde o condutor é um cadáver, talvez mesmo de cera, com a cara para a frente sem pestanejar. Pode isto nem ser metáfora, provavelmente existe uma parte da pessoa que morre momentaneamente para que nasça essa indolência própria de semáforo vermelho.

Depois, o acordar. A paralisia do condutor dá lugar a uns pequenos movimentos. A mão mexe para corrigir a manete das mudanças. Se está vivo, talvez possa estender a mão com umas moedas. Não. Quando o semáforo fica verde-esperança, a esperança dos dois homens não novos desaparece. Hora de voltar ao passeio.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A saudade.


Nos últimos dias tenho visto a saudade. Vejo-a atrás de mim, vejo-a a seguir-me. Mais ninguém a vê, aparentemente. É bonita, não é simpática. Eu vejo-a, bem de frente, mas ela não me olha, não me quer olhar. É como se estivesse sempre a olhar para outro lado, a fazer outra coisa, a ver algo mais,  mas soubesse sempre onde me encontrar. Não é como a sombra, não é um mero efeito de luz que nos persegue indiscriminadamente. A saudade simplesmente está ali. Tenho medo de a tocar, mas sei que conseguia, se quisesse. Às vezes olho para trás, para ver se ela lá está, e vejo sempre que sim. Às vezes como se aparecesse de repente quando me viro, como se ainda tivesse o vestido a voar, acabada de chegar ao local. A saudade é uma mulher, é sempre uma mulher. Não faz sentido de outra forma. Está sempre impecavelmente bem-vestida, sempre no seu melhor, sempre como esperamos que esteja. A saudade é a melhor das mulheres, melhor do que todas as outras. Cheira ao cheiro do quarto pela manhã, cheira ela e a nós, tudo junto e misturado. Quando me deito ela vem comigo, eu vejo-a a entrar na cama, sem desmanchar os lençóis, e a virar-me as costas para que eu a vá abraçar e aquecer. Não lhe toco, mas viro-me para ela. Tenho adormecido a ver-lhe os cabelos, a ouvir-lhe a respiração que eu sei que está lá. Deixo-lhe o pijama dela na almofada, mas sei que não precisa. Quando sonho, vejo-a a olhar-me nos olhos. Não sei se é a saudade ou se é mesmo ela, mas olha-me nos olhos, e eu abraço-a. Acordo de seguida. A saudade já não está ali, comigo. Ela volta quando lhe apetece, ou quando me apetece. Volta quando tem de voltar. Pena ter de voltar tantas vezes.