Se tu entrasses
naquele barco irias ficar deslumbrada.
O degrau é um
pouco alto e a água cor de céu distrai o pé. Cuidado para não escorregares.
Sentas e sentes o vento que não é vento porque o marinheiro vai com pressa de
chegar.
Tu pensas
que não tens pressa
nenhuma de chegar. O bom de navegar é que não existe um caminho. Existe uma
paisagem que é a terra e um horizonte que é para lá. O destino fica no meio
porque é uma ilha. Olhas para a paisagem e
Tu pensas
puta que pariu,
que não tens pressa nenhuma de chegar. Vais pedir um rum no bar porque sentes o
sol a raiar na testa. É boa ideia beber o reflexo do degradê da paisagem, já
que o teu tempo passa sem vontade de passar. Olhas para o marinheiro e
Tu pensas o que
ele pensaria.
Ele pensaria
que a paisagem é
a bombordo e o horizonte a estibordo. O destino está lá ao fundo, vês? Enquanto
pede para servirem mais um rum ao turista cor-de-rosa. Há anos que não repara
na beleza do caminho que não existe porque olha para ele todos os dias. Da
mesma forma que tu não reparas no azul do céu quando caminhas de manhã para a
tua cadeirinha do escritório. E como o marinheiro acordou cedo
Ele pensaria
quantas milhas
faltam para o almoço, e se a direcção do vento pode ajudar a empurrar a carcaça.
Da mesma forma que tu pensas no primeiro café cigarro da manhã só de avistar a
cadeirinha ao fundo da sala. A âncora é lançada e faz aquele barulho
cinematográfico das correntes a esfregar na proa. Tu sabes bem. Os cor-de-rosa
voam para a areia branca farinha porque sentem o cheiro de bichos do mar no
carvão. Tu adoras quase-tudo no carvão então voas também. O marinheiro não,
porque
Ele pensaria
que trincar mais
um peixe mais um dia seria mais uma dor no órgão que fica mais abaixo do
coração, que é o estômago. Da mesma forma que tu pensas no arroz lá da cantina
que te cola os dentes uns nos outros e te rouba todas as orelhas das caixas de
aspirina, porque os palitos teimam em desaparecer. Mas tu devoras aquela
lagosta de forma heróica. Até os cornos, que picam nos dedos. Pedes mais um rum
para celebrar e
Tu pensas
que exactamente
ali está óptimo. Podias enterrar a cadeirinha na areia branca farinha e servir
rum com gelo para turistas almoçados o resto dos teus dias. Duas preocupações
apenas: rum, e gelo. Depois há a questão da dosagem. Mais fácil que Excel. E
tens a paisagem para devorar. Ah, e copos. Também não podem faltar copos. Merda!
Chutaram-te abordo e sentes novamente o vento que não é o vento de quem navega.
Se agora é ao contrário
Tu pensas
que a paisagem
está para lá e acertas. Mas agora vai perdendo a graça. Eu acho que algumas
coisas perdem graça quando vistas de trás para a frente, tais como paisagens,
filmes, livros ou músicas. Ou então és tu que perdes graça quando voltas de um
lugar onde querias ter ficado. Sabes lá, e lá reparas no sorriso agrafado no
canto da boca do marinheiro. E então percebes que esse é o sorriso
De quem sabe
Esse lugar é uma
ilha.