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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Esse lugar é uma ilha

Se tu entrasses naquele barco irias ficar deslumbrada.

O degrau é um pouco alto e a água cor de céu distrai o pé. Cuidado para não escorregares. Sentas e sentes o vento que não é vento porque o marinheiro vai com pressa de chegar.

Tu pensas

que não tens pressa nenhuma de chegar. O bom de navegar é que não existe um caminho. Existe uma paisagem que é a terra e um horizonte que é para lá. O destino fica no meio porque é uma ilha. Olhas para a paisagem e

Tu pensas

puta que pariu, que não tens pressa nenhuma de chegar. Vais pedir um rum no bar porque sentes o sol a raiar na testa. É boa ideia beber o reflexo do degradê da paisagem, já que o teu tempo passa sem vontade de passar. Olhas para o marinheiro e

Tu pensas o que ele pensaria.

Ele pensaria

que a paisagem é a bombordo e o horizonte a estibordo. O destino está lá ao fundo, vês? Enquanto pede para servirem mais um rum ao turista cor-de-rosa. Há anos que não repara na beleza do caminho que não existe porque olha para ele todos os dias. Da mesma forma que tu não reparas no azul do céu quando caminhas de manhã para a tua cadeirinha do escritório. E como o marinheiro acordou cedo

Ele pensaria

quantas milhas faltam para o almoço, e se a direcção do vento pode ajudar a empurrar a carcaça. Da mesma forma que tu pensas no primeiro café cigarro da manhã só de avistar a cadeirinha ao fundo da sala. A âncora é lançada e faz aquele barulho cinematográfico das correntes a esfregar na proa. Tu sabes bem. Os cor-de-rosa voam para a areia branca farinha porque sentem o cheiro de bichos do mar no carvão. Tu adoras quase-tudo no carvão então voas também. O marinheiro não, porque

Ele pensaria

que trincar mais um peixe mais um dia seria mais uma dor no órgão que fica mais abaixo do coração, que é o estômago. Da mesma forma que tu pensas no arroz lá da cantina que te cola os dentes uns nos outros e te rouba todas as orelhas das caixas de aspirina, porque os palitos teimam em desaparecer. Mas tu devoras aquela lagosta de forma heróica. Até os cornos, que picam nos dedos. Pedes mais um rum para celebrar e

Tu pensas

que exactamente ali está óptimo. Podias enterrar a cadeirinha na areia branca farinha e servir rum com gelo para turistas almoçados o resto dos teus dias. Duas preocupações apenas: rum, e gelo. Depois há a questão da dosagem. Mais fácil que Excel. E tens a paisagem para devorar. Ah, e copos. Também não podem faltar copos. Merda! Chutaram-te abordo e sentes novamente o vento que não é o vento de quem navega. Se agora é ao contrário

Tu pensas

que a paisagem está para lá e acertas. Mas agora vai perdendo a graça. Eu acho que algumas coisas perdem graça quando vistas de trás para a frente, tais como paisagens, filmes, livros ou músicas. Ou então és tu que perdes graça quando voltas de um lugar onde querias ter ficado. Sabes lá, e lá reparas no sorriso agrafado no canto da boca do marinheiro. E então percebes que esse é o sorriso

De quem sabe

que o caminho que não existe é o mesmo que leva e retorna, turistas e marinheiros, para um lugar onde nem todos querem ficar.


Esse lugar é uma ilha.