sexta-feira, 25 de abril de 2014

o 25 de Abril


Há uns tempos lia uma entrevista do Pacheco Pereira onde este afirmava que a democracia é algo cultural, civilizacional e anti-natural. É verdade. Não há leis físicas que ditem a democracia. Estou certo que no futuro vou continuar a caminhar com a gravidade que me cola ao chão, mas não conjecturo acerca de viver num sistema democrático. A democracia é frágil, por ser tão tentador para uns tomar de assalto o poder de gerir, em seu proveito, o que é direito todos. Resta-nos portanto o alento de saber aquilo que aconteceu em Portugal, faz hoje 40 anos. Compreender que à semelhança da passarola do Bartolomeu de Gusmão, a democracia se alimenta das vontades, como aquelas tantas que se somaram nesse 1974. Mas não só. A democracia alimenta-se da solidariedade, da equidade, da justiça. Da qualidade da informação, da educação, da crítica, dos olhares atentos. Democracia, socialismo e transparência, em três vértices resumidos. A falta de algum torna os outros frágeis, ou perigosos. Por isso, o 25 de Abril foi tanto, e tanto falta fazer.


Às vezes, sinto curiosidade de ter vivido essa primavera. Só me retraio desse pensamento com a lembrança de que, para isso, teria de existir antes dela. Resta-me então ficar agradecido a quem lutou para possibilitar a revolução dos cravos: a cada militar ou militante, cada insubmisso, cada vinil do Zeca clandestinamente ouvido, cada passagem da rádio Voz da Liberdade escutada, cada livro ou folheto proibido. Enquanto português, tenho a certeza que logo a seguir ao meu aniversário, 25 de Abril é a data que mais molda e acarinha a minha vida.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O vilão.

Fui ter com ela pelo escuro. Ia rompendo o som do silêncio a cada passo, a rua estreitava à medida que escurecia. Os candeeiros de rua iam desaparecendo como oásis esquivos, deixando a iluminação às televisões que iam colorindo o ar, luz filtrada por janelas e estores rotos. Um passo, uma mirada para os lados, outro passo, outra vistoria às redondezas. Vinha na minha direcção um homem para me fazer mal, lá longe. Via-o negro, sem rosto, só casaco e capuz em corpo pequeno e maciço. Segui em frente, movido apenas pelo embaraço que seria voltar para trás. Senti uma gota a fugir-me da têmpora para o rosto, não sei dizer se seria suor ou uma das espaçadas gotas de chuva que o céu ia largando. Engoli em seco, baixei o olhar, apressei instintivamente o passo para evitar que o cruzamento se prolongasse, que palavras fossem ditas, mercadorias trocadas. Trazia a mão estendida para a frente, num passo também ele cada vez mais rápido, e eu imaginei facas e pistolas e armas de todo o tipo, imaginei todos os adereços comuns à vilanagem e outros só comuns na minha imaginação. Outra gota, na outra têmpora, para outra dúvida. O silêncio já tinha cessado para dar origem a um som de animal arfante que eu não dava conta ser. Só me ouvia o barulho, não sentia estar a fazê-lo. O encontro estava cada vez mais perto, era agora inevitável. Se falar para mim eu corro, se falar para mim eu corro, se falar para mim eu

- Boa noite.

e eu só quando comecei a correr lhe vi as pantufas rosas e o cão minúsculo que me perseguiu por dois metros a respirar pesadamente. Não tinha ponderado ouvir uma voz de mulher.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

a virtude do carlos paredes

Há uns dias vinha a ouvir no rádio a transmissão do I Encontro da Canção Portuguesa. Nem costumo ouvir muito rádio, mas eis que sem o procurar, a Antena 1 me deleita com a lembrança de um episódio da nossa história que achei tão bonito e curioso. Nesse evento, a 29 de Março do mesmo ano da revolução de Abril, não faltaram os momentos em que a união dos presentes, especialmente contra a censura, deram a entender a podridão do regime que menos de um mês depois viria a cair. Essa é para mim a parte bonita. A parte curiosa advém de comparar as reacções do público, face ao quarteto de Marcos Rezende e ao Carlos Paredes. O primeiro tocou jazz. Ouviram-se assobios, a malta queria era uma letra para cantar. O quarteto não conseguiu terminar a actuação, sendo literalmente escorraçado. Depois, entra o Carlos Paredes com a Verdes Anos. Nem uma palavra da audiência, só silêncio e emoção, apesar da igual inexistência de letra ou vozes. E pronto. Na falta de melhor resumo, tenho para mim que a virtude do Carlos Paredes foi conseguir falar com uma guitarra. Sem usar palavras, mas a saber dizer tanto.


segunda-feira, 31 de março de 2014

A arte de dormir de lado.


Eu sou dos que durmo de lado, o que, a confiar em sites estranhos, faz de mim alguém que tem uma forma racional de ver a vida e que suspeita de tudo. Não durmo esticado, mas também não durmo em posição fetal: a verdade fica algures aí no meio, consoante o estado de espírito. Quem dorme virado para cima ou para baixo pode até nunca se ter apercebido, por ter a facilidade de cair na cama em posição, mas a verdade é que dormir de lado é uma arte.

A arte está em saber colocar o braço de baixo, uma arte que ainda não dominei, o que é chato, e que se torna ainda mais chato quando as pessoas são picuinhas para dormir, como é o caso. As hipóteses surgem imediatamente. Colocar o braço para a frente parece de caras a melhor opção, mas tem o inconveniente de parecer o grip de uma esquerda a duas mãos (veja-se a esquerda do Marat Safin, a título de exemplo). As mãos tendem a juntar-se numa reza forçada, mas não ficam centradas: ficam encostadas à cama e, como tal, em frente ao ombro que roça o colchão, e a comodidade é aparente. Pode ainda esse braço ficar à frente sem que o outro o acompanhe, como se estivesse a passar um táxi invisível que precisamos de apanhar (o polegar estendido é opcional, aqui). Podemos também optar pelo braço encostado à cama levantado, ficando a mão imediatamente colada à cara, numa posição que não só é incómoda como promete criar vincos que não saem no banho matinal, ou a segurar a almofada como se de uma boombox se tratasse (veja-se o LL Cool J adolescente, algures perdido nos anos 80 ou 90, não sei bem). Nesta versão amigável de abraço à almofada, o outro braço pode inclusivamente encontrar um bom apoio no cotovelo do levantado (como se congelados entre a passagem do passo 3 para o 4 na Macarena; no fundo, no segundo "alegria"). O braço por baixo do corpo nem me merece comentários. 

Mas pior ainda é quando a perna de cima começa a escorregar para a frente, levando a nossa anca de um ângulo de 90 graus para algo próximo dos 45. Nesses casos gravíssimos, o braço é empurrado pelo ombro para baixo do corpo, condenando-o a uma noite de desconforto e a uma manhã de dormência, só comparável à das pálpebras.

No fundo, como em qualquer arte, não há uma só solução. Há maneiras, todas elas correctas ou incorrectas nos seus méritos, de tentar chegar a algo: o sono. O sono é o belo nesta arte que é dormir de lado.

sábado, 29 de março de 2014

Hoje, em Olinda

Hoje, em Olinda, encontrei um maluco que escreveu na parede: 'há mar, amor?'

Achei uma pergunta extremamente relevante.

sexta-feira, 21 de março de 2014

a série Cosmos

Não é comum ver e ouvir o Obama introduzir a estreia de uma série televisiva. No entanto, fê-lo neste mês de Março a propósito da (re-)estreia de Cosmos, por um motivo provável que tento adivinhar: é uma série que faz falta. Como faz falta o seu criador original, Carl Sagan, pela forma peculiar como popularizou a ciência. Notem, não é fácil medir até que ponto se consegue isso de popularizar a ciência, mas criar uma série de divulgação científica com 9.3 no IMDB, à frente dos Sopranos e a meros três lugares do mais-que-pupular Game of Thrones, é uma razoável definição de muito. O Cosmos está de regresso, e como disse, faz falta. Faria em qualquer momento da história, mas talvez mais nesta estranha época em que vivemos, onde as concepções acerca da ciência tendem a resvalar entre um “ó investigador, vai trabalhar, pá” e “a investigação vive no conforto de estar longe da vida real”. 

 Vi com atenção o primeiro episódio. Foi bem engraçado! Um dos produtores-executivos da série é um tal o Seth MacFarlane, o mesmo que é criador do Family Guy e American Dad. Mas foi um engraçado diferente, com a graça não de fazer soltar uma gargalhada mas de colar a atenção nas questões que nos fazem sentir pequenos. Tratou principalmente de duas biografias: de Giordano Bruno e do Universo. A primeira, um hino à força das ideias, faz-nos recordar que as teorias que hoje tomamos como certas são também o fruto de martírios. Giordano Bruno foi condenado à morte pela heresia de propor a existência de outros planetas e por vulgarizar a importância do nosso Sol no universo. E depois, enquanto nos admiramos com ousadia de um só homem e quantdo quase nos convencemos da infinita coragem humana, a grandeza do Universo é-nos apresentada como um tónico contra a arrogância antropocentrista. Somos infinitamente pequenos e são infinitas as questões que temos por responder (e talvez infinitas as que nos faltam perguntar). Demasiadas, portanto, para desprezar a ciência. 

algures aqui

quarta-feira, 19 de março de 2014

Escrever para lembrar

Não é arriscado dizer que a escrita é uma extensão da memória. Nem sequer é original. O Dr. Juvenal Urbino d'O Amor nos Tempos de Cólera encarava o esquecimento que a idade traz com inúmeros apontamentos, perdidos pelos vários bolsos. Contra a decrepitude, uma forma de luta corajosa. Escrever para lembrar. O que não deixa de ser parecido ao acaso dos arqueólogos encontrarem mensagens dos primórdios da humanidade, significados que sobrevivem a qualquer outra lembrança. A escrita como início da história, a estender a própria existência. Escrever para lembrar.

Pode assim falar-se de uma folha em branco como anos perdidos. Em sentido inverso, a esperança média de vida de uma pessoa é um número incompleto, se lhe faltar somar o tempo que demoram as palavras. (Tenho inveja dos escritores, animais pagos para durar mais anos.) Tenho também um problema momentâneo, confesso que comecei a escrever tudo isto com um propósito bem interessante, mas esqueci-me do que ia dizer. Era qualquer coisa relacionada com esse livro, O Amor nos Tempos de Cólera, mas bem, fica para a próxima quarta.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A altura em que só ouvi música pop.

Em termos musicais, nunca fui uma pessoa normal, se entendermos por normal ouvir aquilo que nos é dado pelas principais rádios nacionais. Sempre vivi entre os anos 60/70 e 2000 para a frente, nunca fui à bola com os grandes hits, nunca fui muito do mainstream (sim, pretensioso; mas factualmente correcto). Veja-se a RFM, que todos sabemos que pouco mais é do que uma mistura entre a Comercial e a M80. Um grande filão são os one hit wonders que toda a gente sabe de cor, provavelmente dos anos 80 e inícios de 90, de levar às lágrimas. Ontem, porém, era quase só pop. Levei com os ié-iés do Bruno Mars, com a gritaria da Alicia Keys (a gritar daquela maneira, ninguém duvida que está mesmo a arder), com a falta de tudo o que se possa achar música da Katy Perry (eu já tinha visto videoclips, e nunca reparei que aquilo era tão excruciante), com a Miley Cyrus a tentar demolir-me os tímpanos, com as boysband que se acham número um (One Direction, One Republic, mas zero de música) ou Anselmo Ralph, aquela pessoa que apenas tem uma coisa pior que as suas letras: o início dos seus videoclips. E para vocês, meus amigos amantes da MPB, até um assassinato em formato remix cometeram, tudo com a voz da Marisa Monte pelo meio.

Houve uma altura em que só ouvi música pop. Foram três horas muito longas, mas depois começou o relato do Sporting.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

uma opinião sobre as facturas da sorte

Dez euros em facturas vão dar direito a ter um cupão da sorte, fala-se por estes dias. E se a sorte bater mesmo à porta, trará com ela a felicidade de ganhar um carro de gama alta. Dez milhões de euros são o total deste investimento público.

Li duas críticas que parecem bastante razoáveis. Em primeiro lugar, aponta-se o dedo à medida por ser profundamente desigual na forma como trata ricos e pobres: quem possui mais, mais gasta; quem mais gasta, mais probabilidade tem de ganhar o carro. Enfim, não serão surpresa as propostas deste governo que se pautem pelo fomentar da desigualdade social. Em segundo lugar, o facto de serem oferecidos carros de gama alta, dada a sua natureza poluente, não é um sinal carinhoso para o ambiente.

Passando uma vista de olhos pelo decreto de lei que propõe esta medida, há outra coisa que me parece engraçado destacar. Lê-se que “a factura da sorte tem por finalidade valorizar e premiar a cidadania fiscal dos contribuintes no combate à economia paralela”. Será?

Um velhinho estudo de 1970 por Richard Titmuss, tão badalado na área da economia comportamental, faz-nos pensar acerca da cidadania e dos efeitos dos incentivos. Nesse estudo, o autor montou um cenário experimental em que os participantes foram colocados numa de duas situações: ou lhes era inquirido se queriam doar sangue livremente ou se queriam doar sangue a troco de um incentivo monetário. Estranhamente, quando a recompensa monetária é introduzida, as pessoas tenderam a doar bem menos. Doar sangue tem um valor enorme, humano, moral, cívico. Um valor que não pode ser coberto por nenhum prémio ou estímulo positivo. Quando é colocada a recompensa neste acto, a decisão da pessoa passa perniciosamente a ser vendo ou não vendo, ao invés de faço o bem ou faço o mal.

Um outro estudo, este com a introdução estímulo negativo, foi levado a cabo pelo economista Uri Gneezy. Aqui, o autor observou o comportamento em dez infantários diferentes, quando foi introduzida uma multa a ser aplicada aos pais que se atrasassem a “recolher” as crianças. Contra-intuitivamente, os atrasos aumentaram de forma significativa, assim que as multas começaram a ser aplicadas. Novamente, aquilo que foi introduzido com o estímulo foi um preço em algo que não deveria ter um. A decisão dos agentes é deturpada. Entre fazer o correcto (chegar a horas) ou fazer o errado (atrasar), a pessoa decide como se de um investimento se tratasse: não faz mal que as funcionárias tenham que passar mais tempo no infantário por culpa do meu atraso, paguei para isso.

A equidade fiscal, a contribuição monetária para um estado que proteja as pessoas, o combate à economia paralela, devem ser valores da cidadania. Mas tal como nos dois estudos citados, nos quais os estímulos motivaram exactamente decisões negativas, é possível que a medida do governo possa ser adversa. Se é certo que o decreto de lei fala de cidadania fiscal, talvez a factura da sorte seja algo que retira precisamente a cidadania dos contribuintes. Olha para o cidadão como jogador. Duas conclusões. Quando voltar a perder tempo a soletrar um número de identificação fiscal, posso cair no mesmo raciocínio que me leva a não jogar no euro-milhões: o esforço não compensa a probabilidade baixa de ganhar um carro. Talvez fosse bem mais útil promover a qualidade e tornar evidente a necessidade das instituições que promovem o nosso bem-estar, as quais deveriam ser meta última da nossa responsabilidade fiscal. Talvez fosse bem mais útil dar certezas que o pagar e fazer pagar impostos é o gesto correcto. 

(as fontes dos estudos estão na net, não ia fazer disto uma coisa séria e expô-las, ora essa, é ir ao google) 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Estou te explicando...

...para te confundir.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Choque de civilizações.



Depois de Hollande se ter armado em herói, Obama veio mostrar quem manda.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

dois sem-abrigo num semáforo


Quando a luz passa a vermelho, eles lá vão. Dois homens não novos, barba por fazer, um deles coxeia – nem interessa muito, mas duvido se o coxear trará mais benefício por despertar dó ou prejuízo por tornar lentos os movimentos. Vestem um colete vermelho, a legitimar a venda da revista Cais. Até está calor, mas há vidros que se fecham com o seu chegar. 

Os vidros fechados pregam sustos porque os dois homens podem esbracejar, bater com os nós dos dedos nas janelas, falar, tudo é infrutífero. Um dos sem-abrigo chega a julgar que em vez de carros está a abordar caixões onde o condutor é um cadáver, talvez mesmo de cera, com a cara para a frente sem pestanejar. Pode isto nem ser metáfora, provavelmente existe uma parte da pessoa que morre momentaneamente para que nasça essa indolência própria de semáforo vermelho.

Depois, o acordar. A paralisia do condutor dá lugar a uns pequenos movimentos. A mão mexe para corrigir a manete das mudanças. Se está vivo, talvez possa estender a mão com umas moedas. Não. Quando o semáforo fica verde-esperança, a esperança dos dois homens não novos desaparece. Hora de voltar ao passeio.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A saudade.


Nos últimos dias tenho visto a saudade. Vejo-a atrás de mim, vejo-a a seguir-me. Mais ninguém a vê, aparentemente. É bonita, não é simpática. Eu vejo-a, bem de frente, mas ela não me olha, não me quer olhar. É como se estivesse sempre a olhar para outro lado, a fazer outra coisa, a ver algo mais,  mas soubesse sempre onde me encontrar. Não é como a sombra, não é um mero efeito de luz que nos persegue indiscriminadamente. A saudade simplesmente está ali. Tenho medo de a tocar, mas sei que conseguia, se quisesse. Às vezes olho para trás, para ver se ela lá está, e vejo sempre que sim. Às vezes como se aparecesse de repente quando me viro, como se ainda tivesse o vestido a voar, acabada de chegar ao local. A saudade é uma mulher, é sempre uma mulher. Não faz sentido de outra forma. Está sempre impecavelmente bem-vestida, sempre no seu melhor, sempre como esperamos que esteja. A saudade é a melhor das mulheres, melhor do que todas as outras. Cheira ao cheiro do quarto pela manhã, cheira ela e a nós, tudo junto e misturado. Quando me deito ela vem comigo, eu vejo-a a entrar na cama, sem desmanchar os lençóis, e a virar-me as costas para que eu a vá abraçar e aquecer. Não lhe toco, mas viro-me para ela. Tenho adormecido a ver-lhe os cabelos, a ouvir-lhe a respiração que eu sei que está lá. Deixo-lhe o pijama dela na almofada, mas sei que não precisa. Quando sonho, vejo-a a olhar-me nos olhos. Não sei se é a saudade ou se é mesmo ela, mas olha-me nos olhos, e eu abraço-a. Acordo de seguida. A saudade já não está ali, comigo. Ela volta quando lhe apetece, ou quando me apetece. Volta quando tem de voltar. Pena ter de voltar tantas vezes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Margarida

Tenho um pecado que nunca confessei, e ainda acho que vou parar ao inferno por causa disso. Eu era criança e devia ter uns seis ou sete anos, não me lembro bem. Era Outono e eu estava a passear entre as árvores da nossa quinta lá em Vila Real. Nós tínhamos muitas árvores de tudo quanto era fruta e havia muita fartura o ano inteiro. Ao longe eu vi um garotinho pobrezinho assim da minha idade a roubar maçãs das nossas árvores e aproximei-me. Quando ele se apercebeu que eu estava a ser observado começou a preparar-se para fugir e eu disse ‘fica, não tem problema. Leva quantas quiseres’. Ele hesitou, olhou-me nos olhos e só então continuou a apanhar todas as que conseguia. Mas eram tantas as maçãs que ele queria carregar que eu disse-lhe para dobrar a sua camisola e ajudei a improvisar uma sacola em frente à sua barriga. Quando já não cabia nem mais uma fruta ele olhou-me nos olhos, cansado, com as duas mãos fortemente agarradas no limite da sacola improvisada, e sorriu. Não sei se ele ia agradecer-me, talvez fosse. Nesse mesmo instante em que ele olhou para mim, preparado para partir, comecei a enche-lo de bofetadas. Tantas mas tantas bofetadas. Até hoje eu não consigo perceber porque bati tanto no pobre rapaz. Eu sabia que ele não ia largar as maçãs e por isso ele não saía do lugar. Eu nunca tinha batido em ninguém. As minhas irmãs batiam-me quando fazia alguma coisa errada. 'Deve ser bom bater nos outros', acho que foi o que eu pensei na altura. Foi a única vez que bati em alguém. Não gostei. Espero que não vá parar ao inferno por causa disso.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

abriu a época de caça

Dei com o facebook do Portugal Pró-Vida. Isso mexeu, de certa forma, com aquilo que penso.


Vejamos esta imagem. Sou sensível a estas coisas.
Vejam a felicidade da criança. A forma terna mas convicta com que diz sim à vida. O sorrir com os olhos azuis. Toda ela agradece à vida. Imagino a sessão fotográfica. Alguém que lhe pergunta, és pró vida? E a crinaça logo brilha e grita Sim Sim Sim. O polegar serve de haste de bandeira. Uma bandeira que também gritaria Sim Sim Sim, e que só não foi fotografada por não precisar de o ser. Uma criança tão certa, com a sabedoria que é tão infantial quão verdadeira e genuína. Se ela tem tantas certezas quanto a apoiar o Portugal Pró Vida, quem sou eu para não o fazer. Pergunta-me, e tu? e dei comigo a sussurrar Sim Sim Sim.

E foi de ficha quase assinada, dinheiro pronto para a primeira quota, coração cheiro de amor, que dei com isto...

E é por isso que continuo um progressita reviralhista anti vida :(


já que falas nisso

É uma pergunta interessante Luís. 

Há quem diga que era isso que o Zeca Afonso queria afirmar de uma forma literal: o povo é quem mais ordena, sempre e em todo o lado. 
Mas há também quem ache que esse dito é discriminatório para a grande extensão de área rural do nosso país, pelas palavras que lhe seguem: o povo é quem mais ordena, dentro de ti ò cidade. Já passei por aldeias onde ouvir o nome Zeca Afonso é sacrilégio, por se pensar que a cantiga do homem foi forma de incentivo ao despotismo fora dos grandes centros urbanos. 
Uma terceira facção, menos falada nos dias de hoje, defende que a intenção do Zeca era somente despoletar uma comuna popular, bem contida em Grândola. Mais, essa forma de governo haveria de promover Grândola de vila a cidade, mal o povo fosse soberano.

Das três uma, ou cidade é uma forma de alegoria e a cantiga diz respeito ao país inteiro; ou cidade utiliza-se com o propósito de afirmar que o povo só conseguirá ordenar longe das zonas rurais; ou o povo, na realidade, só tem o direito de ordenar em Grândola.

Não sei a resposta à tua pergunta, o meu coração divide-se pelas três hipóteses. O Zeca Afonso morreu. Mas a memória histórica do nosso Portugal não pode resvalar quanto a esta questão. Acho, sinceramente, que devíamos de uma vez por todas sondar os portugueses e democratizar uma resposta para essa dúvida acutilante. É claramente uma matéria de consciência. Proponho um referendo. Talvez estejas em melhor posição para fazer chegar esta proposta à JSD. Continuava a custar dinheiro e preencher agenda política, mas referendar este tema até tem a pequena vantagem de não estar a perguntar ao povo o que acha acerca de vedar direitos e discriminar uma parte desse povo.

A propósito disto da co-adopção.


Então mas não é o povo quem mais ordena, Fernando?

domingo, 19 de janeiro de 2014

Insónia

Descobri como Maria mãe de Jesus engravidou. Estava com a imaginação fértil.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O vestido encarnado

Ela era alta e morena, mas com tom de pele assim cor de algodão. Tinha aquela indecifrável beleza de quem anda com o cabelo apanhado na nuca e usa óculos quadrados de arquitecto. Aquela beleza de parecer um bongo visto de cima. Um bongo de óculos. Trabalhava naquela cafetaria bem americana de avental azul justo à cintura, com seu nome brilhante numa placa ao peito, saltos de tropeçar alto e bule na mão. Bule de plástico na mão, de mesa em mesa ou no balcão.

Ele usava fato escuro a tinha uma barba rente que lhe dava um ar marítimo. Um ar de quem faz vela antes de entrar no elevador do escritório. Tinha aquele charme da meia-idade que mantém as pernas finas mesmo quando a barriga começa a fazer uma curvinha.

Ela foi à mesa dele, de bule na mão.

- Senhor, posso anotar o seu…
- Cristina? Não acredito, és mesmo tu Cristina?
- Mas eu não…

(Ele interrompe e fala depressa sem desligar seus olhos dos olhos dela)

- Eu não acredito. Continuas igual Cristina, mesmo passados tantos anos. Ah! Não acredito. Sim, eu devia ter-me lembrado que moravas aqui. Mudei-me há poucas semanas, nunca pensei que te pudesse voltar a encontrar. Mas estás aqui, e continuas linda. Estás aqui Cristina...

(Ele sorri aquele sorriso emocionado que soluça de vez em quando)

- Senhor, deve ser algum…
- Não me chames de Senhor, chama-me de Pedro. Senta, senta aqui.

(Ele segura o bule com a mão direita, e com a esquerda puxa delicadamente o braço dela)

(Ele continua, agora mais pausado)

- Quantos anos passaram Cristina? Sete? Oito anos? Eu nunca me esqueci daquelas nossas férias nas Ilhas. Eramos tão jovens, mas nunca me esqueci de ti. Lembraste que tudo começou quando eu quase de atropelei com minha mota à saída do aeroporto, no dia que chegaste? Ah! Eramos tão jovens. Eramos tão descuidados. Eu fiquei apavorado. O teu ar tão frágil, tão delicado, tão orquídea de jardim…
- Mas eu nunca fui…
- Tu foste tão compreensiva. Saímos do hospital com um jantar marcado, quem diria, depois de quase te atropelar? Ah! Contado assim parece mentira. E que jantar que foi, Cristina. No terraço junto ao mar, sobre a água cristalina do Índico que reflectia nos teus olhos que reflectiam nos meus. A lua. Lembraste de como a lua se distorcia na ondulação do horizonte? E então, discretamente, o meu indicador e o do meio caminhavam para junto da tua mão, entrelaçando-se no silêncio da alvorada…

(Ele olha profundamente os olhos dela, que cora ainda ecoando a sua voz grave e segura)

- Mas eu não me lembro…
- E depois veio aquele dia inesquecível. Éramos tão jovens e tão românticos e tu estavas lá, na proa do nosso barco, fechando os olhos para o vento quente do continente. Estavas lá tão verdadeira, tão margarida a respirar o sol. Eu abracei-te assim colocando o queixo no teu ombro, embrulhando o teu ventre com minha palma enquanto a outra deslizava pelo ombro. Lembro-me do teu cheiro de jasmim. De jasmim orvalho. E então, quando o mar agitou e respingou na tua cara tu assustaste-te, e fizeste aquele olhar de peixe-balão. Viraste-te com o cabelo colado no contorno da cara, sorrindo como uma criança no natal, e eu vi aquela gota que se soltou da tua franja, driblou o limite da tua sobrancelha e caiu assim… no limite do teu lábio. E eu fui atrás dela. Também te lembras do nosso primeiro beijo, não lembras?

(Ela não respondeu, continuou corada e sorriu)

- Vamos jantar amanhã. Vamos comer um Chateaubriand, isso, eu lembro-me que tu adoras. Apanho-te aqui às 20h30, combinado Cristina? Leva aquele vestido encarnado que eu adoro. Sim?

(Ela hesita e solta um sim trémulo)

- Sim…

Ele levanta-se, aperta o botão de cima do casaco e coloca o chapéu. Mas quem é que ainda usa chapéu hoje em dia? Ele usa. Deu-lhe um beijo lento na bochecha, atrevidamente perto da boca dela. Ela não se mexeu. Continua sem se mexer. Soltou mais um sorriso. E então, quando ele abria a porta daquela cafetaria bem americana virou-se e perguntou:

- Rosas ainda são as tuas preferidas?
- Sempre foram.

Ela chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava um sapato com o outro. No branco do tecto tentou encontrar um sinal que explicasse a loucura do dia. Será que uma mentira muito bem contada se poderia transformar numa verdade? Nunca tinha viajado. Nunca tinha pisado num barco. Nunca tinha recebido rosas. Nunca nada. Mas adoraria. A verdade é que adoraria.

Ela chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto descalçava o outro sapato com o pé. O que seria um Chateaubriand? Um peixe esquisito? Sim, deve ser um peixe esquisito. Ou um pássaro. Ela prometeu que não ia tentar descobrir até amanhã. Queria mais uma surpresa, pelo menos mais uma. Seja o que deus quiser. Já chega a dor de cabeça de ter que encontrar, assim, de um dia para o outro, um vestido encarnado.

Ele chegou no apartamento e caiu no sofá enquanto desapertava o cinto das calças. Cintos incomodam muito mais do que sapatos. Ele? Bem, ele estava tranquilo. Faz sempre a mesma brincadeira quando vê uma moça bonita com o nome brilhante numa placa ao peito.